15 de nov. de 2008

Subjetividade e Tecnologia: as Novas Máquinas Produtoras de Corpos

Subjetividade e tecnologia: as novas máquinas
produtoras de corpos
Carlos Camargos Mendonça_
Resumo: Este artigo1 pretende refletir
acerca da ampliação do entrelaçamento
entre o humano e a máquina através das
tele-tecnologias e da disseminação dos
dispositivos e da lógica hipertextual que
acabou por alcançar o próprio corpo, que é
submetido a todo tipo de operações: modelizado
por programas computacionais (no
domínio do cinema e das experimentações
artísticas), entregue ao jogo das aparências
e da simulação das identidades nos chats e
salas de conversação, conectado a próteses
artificiais, vasculhado em seu interior - mas
sem ser penetrado - pelas nanotecnologias
ou pelos programas de realidade virtual,
tornado lugar de implantes biotecnológicos,
ou então movido e afetado à distância por
meio dos dispositivos - técnicos e artísticos -
que se servem da telepresença. Poderíamos
afirmar que, mais do que objeto de desejo
(como comprovam todas as paixões eróticas
que pululam na Internet, das mais perversas
_Mestre em Comunicação Social, professor
do Departamento de Comunicação Social da Fafich/
UFMG e membro do Grupo de Pesquisa em Imagem
e Sociabilidade da Fafich/UFMG
1 Este artigo é uma versão ampliada do trabalho
apresentado no VIII Colóquio Internacional de Sociologia
Clínica e Psicossociologia, realizado no período
de 03 a 06 de julho de 2001, na Universidade Federal
de Minas Gerais, Brasil.
às mais inocentes), o corpo aparece aí como
um objeto de projeto - segundo a expressão
do artista australiano Stelarc.
O que pretendemos demonstrar ao longo
deste artigo é que, mesmo aí, quando falamos
do corpo e da sua hibridação ou interação
com a máquina, encontramos o vínculo
entre o socius e a subjetividade2, agora
sob a forma de um corpo partilhado a distância.
Desta maneira, consideramos que
as metamorfoses sofridas pelo corpo, seja
através do objeto artístico ou ainda pautadas
nas experiências tecnológicas, estão -
antes de mais nada - imbricadas em estratos
sócio-culturais, códigos culturais e fluxos
de espaço-tempo que além de modelizar
o corpo metamodelizam a subjetividade contemporânea.
A aproximação entre o corpo físico natural
e a máquina tecnológica está sendo elaborada
nas mais variadas instâncias de pesquisas
e estudos. O que nos chama a atenção é
não só o desenvolvimento de algoritmos que
2 Por subjetividade entendemos - com Félix Guattari
- o “conjunto de condições que torna possível que
instâncias individuantes e/ou coletivas estejam em
posição de emergir como território existencial autoreferencial
em adjacência ou em relação com uma alteridade
ela mesma subjetiva”. (Cf. GUATTARI. Caosmose,
p.19).
2 Carlos Camargos Mendonça
possibilitam a modelagem de diferentes tipos
de sólidos, mas também as criações conceituais
tais como aquelas da teoria da complexidade
ou surgidas das experimentações
estéticas que promovem a inter-relação entre
arte, corpo e tecnologia.
Peter Pál Pelbart, no início de sua obra A
vertigem por um fio, atenta para o fato de que
a fabricação social e histórica da subjetividade
não é um dado novo. Para ressaltar tal
constatação, o autor remonta à Nietzsche e
os métodos evocados por estes para dizer da
domesticação do corpo.
Recentemente se mostrou que a docilização
de um corpo pode recorrer a tecnologias
mais suaves, dispensando até
mesmo a violência direta, física... Novas
maneiras de moldar o corpo, modelá-lo,
marcá-lo, excitá-lo, erotizá-lo, obrigá-lo
a emitir signos etc. Não cabe aqui aprofundar
o sentido desta domesticação, da
qual, pelo visto, ainda nada vimos. Basta
lembrar que daí se depreende mais e
mais como um truísmo: se a forma do
homem, a forma do homem é uma modelagem
histórica complexa e mutante, não
há por que desesperar-se com a exclamação
do filósofo: ’estamos cansados do
homem’. O que o enfastia é o fato de que
o homem se tornou um verme medíocre e
insosso, e que esse apequenamento nivelado
se tornou meta de civilização...
É preciso seguir Nietzsche até o fim,
mesmo e sobretudo quando seus textos
sugerem que o homem aprisionou a vida,
e que é preciso livrar-se do homem para
libertar a vida...
Mas como liberar as forças aprisionadas
sob a carcaça atual do homem? É
uma guerra total, cruel, brutal e sofisticada
ao mesmo tempo, não menos violenta
talvez, do que aquela que deu origem
a essa forma que hoje se quer remover,
e cujo campo de batalha não é
outro se não o próprio corpo do homem,
desde seus genes até os seus gestos,
sua percepção, seus afectos. Nada
está decidido, pois o homem continua
sendo, conforme a definição de Nietzsche,
’o ainda não domado, o eternamente
futuro’. O retrato que Nietzsche nos lega
é também um chamamento: o homem, um
grande experimentador de se mesmo."
(PELBART.2001: 13)
Segundo Edgar Morin (1993), todo organismo
vivo é uma máquina que necessita,
para manter-se vivo, do trinômio matéria/
energia/informação exterior, sem desconsiderar
a utilização de seu patrimônio genético.
Computamos as informações exteriores
para garantirmos nossa sobrevivência.
Toda estrutura do mundo, seja ela uma célula,
um grande organismo vegetal ou animal
funciona como uma máquina computante.
Criamos autonomias e depedências
para nos mantermos vivos. Somos “seresmáquinas”.
O paradigma da “auto-organização” defendido
por Heinz von Foerster e por Henri
Atlan está presente no pensamento de Edgar
Morin. Para von Foerster, um dos fundadores
da cibernética, a criação da máquina artificial,
diferentemente da máquina natural,
não a capacita para auto-organizar seus programas
à medida em que esses são operados.
Máquinas artificiais dependem de constante
programação exterior. Essas máquinas não
são capazes de se auto-gerir ou mesmo de
efetuar algum tipo de pensamento. A imprewww.
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Subjetividade e tecnologia 3
visibilidade do pensamento humano não está
presente nos programas de computadores, o
que os impede de imitar a inteligência humana.
O armazenamento de dados matemáticos
e linguagens computacionais não configura
memória. O computador não tem memória,
tem apenas armazenamento de dados,
ele nunca descreverá suas memórias, conclui
o autor.
É através de noções como a de “seresmáquinas”,
de corpos híbridos, metamodelizados
por múltiplos agenciamentos maquínicos3,
habitantes do encontro virtual das redes,
que buscamos perceber uma possível
composição que organiza os novos modos de
subjetivação e de sociabilidade.
O surgimento das redes telemáticas e da
cultura digital, a criação do ciberespaço, a
proliferação das comunidades virtuais, as
mudanças no mundo do trabalho proporcionadas
pela inserção dos computadores nos
modos de produção e comercialização de
bens e produtos, as próteses eletrônicas utilizadas
na medicina ou mesmo as combinações
da engenharia genética são elementos
que modificam o nosso corpo. Os novos aparelhos
para exames médicos possibilitam ver
o interior do corpo sem cortá-lo; a ultrassonografia,
por exemplo, detalha formato, tamanho
e textura dos órgãos.
Pesquisas como a da Universidade de
Washington, nos Estados Unidos, são de-
3 Guattari denomina maquínico o estrato de sentido
formado por matérias expressivas heterogêneas,
não-linguisticamente formadas, mas ainda assim de
natureza semiótica. Substâncias de expressão heterogêneas
como as codificações biológicas ou as formas
de organização própria ao socius – como aquelas derivadas
de instituições como a família ou a escola –
atravessam, transversalmente, os domínios de sentido
propriamente linguísticos. A esse respeito, cf. Caosmose,
p.35-38.
senvolvidas, desde o início de 1998, com
o objetivo de criar procedimentos cirúrgicos
através de realidade virtual. A universidade
de Simom Fraser, em Burbanaby, no
Canadá, também pesquisa cirurgias em ambientes
virtuais. Na California, Estados Unidos,
a Computer Motion, empresa que desenvolve
braços robóticos, desenvolveu o robô
Zeus. Com três braços, ele auxilia e melhora
a operação médica. Dados como estes indicam
que o corpo humano está passando por
transformações, seja na sua relação com as
máquinas, seja na sua inter-relação com o
outro mediada pelas tecnologias. Para André
Lemos
Vivemos hoje, sem dúvida, um processo
de conversão do mundo em dados binários.
A artificialização avança com o digital,
atravessando todos os aspectos da
cultura comtemporânea. É neste contexto
que pode surgir o discurso sobre
os cyborgs. Embora seja fruto de processos
ancestrais da simbiose homemtécnica,
o cyborg só pode existir num
mundo traduzido em bits. Não é a toa que
o corpo passa a ser uma superfície de escrita
de vários ‘textos’; um grande hipertexto,
desaparecendo enquanto corpo natural
(processo de hiper-exteriorização
com prótese, nanotecnologia, vacinas; e
hiper-interiorização - construção de subjetividade).
(LEMOS. 1998: 54)
Tal como escreve André Lemos, os
processos de hiper-exteriorização e hiperinteriorização,
por sua vez, adquirem força
na aproximação entre o corpo físico natural
e as máquinas tecnológicas. A hiperexteriorização
ganha um relevo considerável
na modelização informática do corpo.
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4 Carlos Camargos Mendonça
As tecnologias não inauguram simplesmente
um corpo imaginário, desejado, elas nos proporcionam
um corpo até então não imaginado:
o cibercorpo.
Para o artista australiano Stelarc, estamos
estendendo as capacidades do corpo com o
uso das tecnologias. Em suas performances,
o artista utiliza a combinação de próteses e
de estímulos nervosos a partir de corrente
elétrica sobre seu corpo, buscando uma imbricação
entre movimentos voluntários, involuntários
e programados. “O corpo não
como sujeito, mas como um objeto – não um
objeto de desejo, mas um objeto de projeto.”
(STELARC.1997:55)
A biotecnologia está nos dando novas dimensões
da interioridade e da exterioridade
do corpo físico natural. O corpo adquire uma
nova espessura, no ciberespaço ele se torna
híbrido, misturando os componentes do humano
e da máquina. Paul Virilio dedica um
capítulo de seu livro A Arte do Motor à discussão
da relação entre os novos dispositivos
tecnológicos e o corpo físico natural. Partindo
do super-homem nietzscheano e chegando
até o superexcitado Stelarc, Virilio
analisa o que ele denomina “intra-estrutura”,
istó é, a inseminação do corpo físico humano
pelas biotecnologias, possibilitada pelo desenvolvimento
da nanotecnologia.
Paul Virilio comenta que a nanotecnologia
está propiciando uma colonização do corpo,
produzindo até mesmo uma invasão microfísica
do corpo e surgindo assim como último
recurso, ou recurso de ponta, para domesticar
o homem. Segundo ele, houve uma modificação
no espaço ocupado pelas tecnologias
de ponta, que deixou de ser o universo
sem fronteiras do ambiente planetário para
ocupar nossos órgãos. “A perda, ou mais
exatamente, o declínio exclusivo da ausência
de intervalo das teletecnologias do tempo
real resulta inevitavelmente na intrusão intraorgânica
da técnica e de suas micromáquinas
no seio do que vive.”(VIRILIO.1996:92)
O “corpo-próprio” sofre o ataque da biotecnologia
– que agora é capaz de povoar
as entranhas do sujeito. As novas técnicas
suplantam revoluções como a industrial e a
provocada pela transmissão imediata de informação
pelos meios de comunicação de
massa. A revolução de agora é a dos transplantes,
que têm em si o poder de povoar o
corpo vital com técnicas estimulantes, afirma
Virilio.
Se durante toda a sua história a técnica
se desenvolveu no sentido do corpo geofísico,
agora ela caminha na direção do corpo
físico, excitando-o e estimulando-o ao máximo
como forma de compensação diante da
inércia a que está condenado pelas modernas
formas urbanas de vida:
Não se pode descrever melhor o estado
dos lugares de nossa pós-modernidade
onde os superexcitantes são prolongamentos
de uma sedentaridade metropolitana
em vias de generalização acelerada,
notadamente graças a essa teleação
que substitui doravante a ação imediata...
A inércia, a passividade do homem
pós-moderno exige um acréscimo
de excitação, não somente através das
práticas esportivas abertamente desnaturalizadas,
mas também no caso de atividades
cotidianas em que a emancipação
corporal devida às técnicas da teleação
em tempo real liquida as necessidades
tanto de vigor quanto de esforço
muscular. (VIRILIO.1996:93)
As mudanças que hoje atingem o corpo
vão muito para além das transformações prowww.
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Subjetividade e tecnologia 5
porcionadas pela cirurgia plástica. Um novo
projeto de corpo redimensiona o velho modelo
de carne e osso para colocá-lo mais próximo
da hibridação homem-máquina. Um
novo tecido cobre a pele, desnudada e penetrada
por aparelhos bio-tecnológicos: “O
corpo hoje pode ser construído, apagado,
restaurado. Já não há mais verdade no
corpo”, afirma o artista multimídia e professor
da The School of the Art Institute of
Chicago (EUA) Eduardo Kac, em entrevistas
ao Jornal Folha de São Paulo na abertura
da exposição “Arte Suporte Computador”, na
Casa das Rosas, em São Paulo, no dia 11 de
fevereiro de 1997.
Às 21h30 daquele dia, em uma maca, Kac
tomou uma anestesia local para fazer uma
incisão com bisturi no tornozelo esquerdo e
implantou ali um chip como parte da obra
Time Capsule. O chip, que ficará no corpo do
artista para sempre, tem o tamanho de 15mm
x 2 mm e trazia um número aleatório que poderia
ser decodificado: 026109532. A operação
foi transmitida ao vivo pela TV Cultura
de São Paulo e pela internet. Para o artista, o
implante fazia parte de um trabalho de arte e
não foi apenas uma cirurgia.
Em outros trabalhos seus, como o Ornitorrinco,
por exemplo, um robô pode ser operado
a distância e em tempo real via internet.
Desse modo, o espectador pode explorar, à
distância, o espaço no qual o robô está.
Os elementos imateriais são mais adequados
para o meu trabalho: luz, lugares
remotos e diferentes zonas temporais,
conversações orais, videoconferências,
navegação robótica, multiplicidade
dos espaços virtuais, sincronicidade, interação
humano/máquina, interação animal
e planta, interação humana e animal
mediada por telerrobôs, e transmissão,
recepção e troca de informações digitais.
(KAC.1997:322)
Por meio dessa estranha interação entre as
máquinas e os seres vivos (animais e humanos)
as obras de Kac colocam em coexistência
elementos do espaço virtual e do real
na busca de expandir o corpo físico natural
através do espaço eletrônico e das diferentes
formas de tele-ação. Um corpo feito feito
de perceptos e afetos mutantes4. A título de
ilustração sobre os perceptos e afetos mutantes,
desencadeados pelas hibridações entre
os corpos e as máquinas, podemos nos lembrar
do filme Matrix. Nessa obra, a vida é
uma ilusão produzida por dispositivos tecnológicos
operados por um grupo de inteligências
artificiais que se rebelou contra os humanos.
No ciberespaço foi criada uma reprodução
do mundo físico natural e os humanos
são usados, sem saber, como fonte de energia
para as máquinas. Aqueles que conseguiram
se libertar - ou se desconectar, como dizem
eles - usam a grande rede para fazer a passagem
de seu mundo físico para o mundo possível
(segundo a caracterização de Eco para
a ficção científica5) representado pelas redes.
Quando se servem desse processo, uma to-
4 Segundo Deleuze e Guattari, perceptos e afetos
são seres de sensação que transbordam o vivido e a
própria percepção, e se conservam nos diferentes materiais
da arte. Enquanto o percepto é aquilo que nos
arranca das percepções vividas, o afeto é aquilo que
nos revela os devires não-humanos do homem. Cf.
Deleuze, Guattari. O que é filosofia? p. 216-217
5 Para Eco, a metatopia ou metacronia é denominação
mais apropriada para a ficção científica. Esse
tipo de narração remete, imediatamente, a uma visão
de tempo futuro: "Metatopia ou Metacronia: as épocas
retratadas nas obras representam um tempo futuro
que, por mais diverso que seja do real, é possível
e verossímil porque as transformações a que foi
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6 Carlos Camargos Mendonça
mada cheia de microsoftwares implantada na
nuca permite a conexão do corpo com a rede
informática chamada Matrix. Nessa rede, o
corpo pode adquirir qualquer forma ou função,
ser construído ou reconstruído quantas
vezes for necessário, desde que não sofra nenhuma
ação letal. O corpo de quem não se
libertou da grande rede está preso em cápsulas,
apenas a mente trabalha estimulada pela
ilusão de que está tendo uma vida comum.
Identificamos aí um tipo de Corpo sem Órgãos
(CsO).
Deleuze e Guattari definem o Corpo sem
Órgãos - CsO, do seguinte modo:
Um CsO é feito de tal maneira que ele só
pode ser ocupado, povoado por intensidades.
Somente as intensidades passam
e circulam. Mas o CsO não é uma cena,
um lugar, nem mesmo um suporte onde
aconteceria algo. Nada a ver com um
fantasma, nada a interpretar. O CsO faz
passar intensidades, ele as produz e as
distribui num spatium ele mesmo intensivo,
não extenso. Ele não é espaço e nem
está no espaço, é matéria que ocupará o
espaço em tal ou qual grau – grau que
corresponde às intensidades produzidas.
Ele é a matéria intensa e não formada,
não estratificada, a matriz intensiva, a
intensidade = 0, mas nada há de negativo
neste zero, não existem intensidades
negativas nem contrárias. (DELEUZE e
GUATTARI.1996:13)
O CsO é uma experimentação inevitável,
que põe em contato o corpus e o socius concedendo
aos órgãos uma outra função, modificando
sua função natural, permitindo ver
submetido nada mais fazem do que complementar as
linhas de tendência do mundo real." (ECO.1989:168)
com a pele ou sentir com os olhos, tal como
fizeram em diferentes ocasiões, em suas experimentações
literárias, criadores como Artaud,
William Burroughs, Carlos Castañeda
e Henry Miller. Para Deleuze,
do mesmo modo como o mecânico supõe
uma máquina social, o próprio organismo
supõe um corpo sem órgãos,
definido por suas linhas, seus eixos e
seus gradientes, todo um funcionamento
maquínico distinto das funções orgânicas
sociais tanto quanto das relações mecânicas.
(DELEUZE. 1998.p.122)
Atualmente, modificações profundas
emergem dos novos modos de relação
humana, não só com referência aos corpos
que habitam o ciberespaço, mas também no
que diz respeito ao cotidiano, nas interações
simples do dia a dia. As ingerências das
mutações tecno-científicas nas sociedades
complexas desse fim de século reconfiguram
a ecologia social. Guattari afirma que a
ecologia do virtual se faz tão necessária
ao mundo de hoje quanto a ecologia do
mundo natural e humano. Segundo ele, as
artes nos servem como ricos instrumentos
e como paradigmas de referência para
as novas práticas sociais. A ecologia do
virtual, aliada à ecologia do mundo natural e
humano, produzirá a ecologia geral ou, nos
termos do autor, a ecosofia, que
agirá como ciência do ecossistema, como
objeto de regeneração política mas também
como engajamento ético, estético,
analítico, na iminência de criar novos
sistemas de valorização, um novo gosto
pela vida, uma nova suavidade entre os
sexos, as faixas etárias, as etnias, as raças...
(GUATTARI.1993a:116)
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Subjetividade e tecnologia 7
Quando levamos em conta os perceptos e
afetos mutantes, produzidos na conformação
do cibercorpo - com suas infinitas interfaces
que se desdobram em interioridade e
exterioridade - percebemos os agenciamentos
hipercomplexos que compõem o corpo
meio-objeto meio-sujeito a que estamos nos
referindo. Nesse corpo, modificado pela tecnologia
não só no seu aspecto físico, mas
também na sua estrutura psico-social, os velhos
órgãos se expandem e se retraem para
produzirem novos movimentos e estímulos
que configuram uma subjetividade que aproxima
o humano e as máquinas.
Deleuze e Guattari nos apresentam uma
pequena procissão de corpos: o corpo hipocondríaco,
o corpo paranóico, o corpo esquizo,
o corpo drogado e o corpo masoquista.
Tomemos como referência, nesse
momento, o corpo drogado. A personalidade
fendida com a droga passa a desenvolver
um modo diferenciado de ser. Novos
objetos são apreendidos por esse sujeito
em seu território existencial, com uma diferença:
entradas existenciais adquirem um caráter
desigual, algumas se tornam mais importantes
que as outras. Esse processo imprime,
em uma primeira visão, uma desterritorialização
dos modos de subjetivação existentes,
mas acaba por construir uma reterritorialização
conservadora no território existencial.
O usuário do ecstasy, por exemplo,
busca eternamente recuperar o shoom (sensação
de bem estar) da fase inicial de uso
da droga. Sem sucesso, desenvolve algumas
patologias como a depressão crônica, dependência
psíquica e uma dificuldade em lidar
com o mundo real, que nem sempre é tão
divertido como uma pista de dança de uma
rave.
A crescente produção de materiais informáticos,
de linguagens, de produtos informacionais,
de novos dispositivos eletrônicos
– como as copiadoras com dados armazenados
em chips ou as câmeras de vídeo produzidos
com periféricos de computadores – encurta
as distâncias espaço-temporais e alarga
nossas representações. O corpo desdobrase
em características hipertextuais e rizomáticas,
extrapola o universo traduzido em
bits para regalar-se em experiêncas estéticas,
sensoriais, cognitivas e conceituais que
o desterritorializam numa escala até então
desconhecida.
Maffesoli (1996) afirma que, na perspectiva
de uma estética ampliada, há uma erótica
dos corpos, ou seja, eles funcionam como fatores
de união e de criação de comunidades.
Se podemos afirmar que estamos frente ao
estabelecimento de alguns pressupostos que
apontam para a constituição das comunidades
virtuais, como então desprezar uma aproximação
entre os cibercorpos?
Concordar com as afirmativas que declinam
um vasto repertório sobre o caráter narcotizante
que as experiências mediadas pela
tecnologia apresentam, significa desprezar
que há um entrelaçamento ou uma apropriação
da forma técnica pelo laço social. E
a essa apropriação os cibercorpos não escapam.
Os planos da alteridade não serão desprezados
pelos corpos construídos ou estendidos
pelas tecnologias. Quando em um chat
−− fóruns on line que funcionam em tempo
real −−, o sujeito muda seus componentes
identitários, ele produz um corpo ilusório,
não somente para si mesmo, mas para estabelecer
um contato com o outro. Sobre o
motivo dessa escolha que permite jogar com
a aparência poderíamos escrever um sem núwww.
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8 Carlos Camargos Mendonça
mero de artigos, o que não é nosso objetivo.
O que queremos dizer é que nesse modo de
tele-presença, em que a voz é ainda muito
pouco usada, a ilusão do corpo, nos termos
de Maffesoli, constitui um forte elemento
para a sedimentação de relações.
Partindo das conversas on line e chegando
até as experiências de Kac e do superexcitado
Stelarc, que interferem sobre o próprio
corpo para criarem suas performances artísticas,
ainda aí não podemos dizer de uma
atitude solitária, individualista. A opção da
intervenção sobre o corpo é individual, não
resta dúvida, mas a atitude aí produzida tem
efeitos coletivos. Maffesoli, a partir de Nietzsche,
ao comentar a transposição da arte
para o cotidiano, afirma que o homem “é produto
da estética, ele é participante de um ‘genius’
coletivo que o ultrapassa de longe. É
tomado pelas formas, como um banho matricial
que o modela e faz dele o que ele é.”
(MAFFESOLI.1996:150)
É importante relembrar aqui que Maffesoli
confere ao termo estética um sentido
amplo, um sentido de agregação que constitui
as relações sociais a maneira de uma
pulsão. A própria atitude, seja ela produzida
no ciberespaço ou sobre o corpo físico, não
é o sintoma de uma subjetividade narcísica
e solipsista, mas, paradoxalmente, signo
de um narcisismo de grupo, nos termos de
Maffesoli. Parafraseando o autor, como
nos rituais de algumas sociedades da Idade
Média, o sujeito está oferecendo sua carne
em partilha, não para uma colonização, mas
para uma exaltação coletiva do corpo, seja
na sua hibridização com as máquinas, seja
quando afetado à distância.
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