Educação e inovação tecnológica: um olhar sobre as políticas públicas brasileiras
Nelson Pretto - FACED/UFBA
Texto produzido a partir das pesquisas do autor Educação e Novo milênio: as novas tecnologias da comunicação e informação e a educação e Tecnologias da Comunicação e Educação durante o pós-doutoramento do autor no Centre for Cultural Studies/Goldmiths College [http://www.goldsmiths.co.uk/cultural-studies].Ambas com apoio financeiro do CNPq. Meu especial agradecimento a Marília Gouveia (Faculdade de Educação/UFG) pelas fundamentais críticas à versão inicial deste texto.
Nelson Pretto é professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia. Doutor em Comunicação pela USP (1994). E.mail: pretto@ufba.br Home-page: http://www.ufba.br/~pretto Fax: + 55 (0)71 235 2228
Educação e inovação tecnológica: um olhar sobre as políticas públicas brasileiras
Resumo
Transformações significativas estão ocorrendo em todas as áreas do conhecimento com um desenvolvimento científico e tecnológico que aproxima de forma inexorável potências humanas e máquinas. Os sistemas de comunicação ganham especial impulso com este desenvolvimento e passamos a viver numa sociedade da comunicação generalizada, numa sociedade rede. Este texto analisa o conceito de rede, rede sociocultural e tecnológica, que passa a ser fundamental para ampliar a nossa compreensão do mundo contemporâneo e dos reflexos no sistema educacional.
Num segundo momento do texto, é feita uma análise do discurso governamental sobre os projetos de implantação das tecnologias da comunicação e informação – especialmente televisão e computadores - no sistema educacional brasileiro.
Palavras-chaves: educação e comunicação; Internet; informática educativa; telemática; tecnologia educacional; políticas públicas;
Um mundo em transformação
Vivemos um momento especial da história da humanidade. Grandes transformações estão ocorrendo em todo o planeta, com grande velocidade e difícil dimensionamento.
Um dos conceitos chaves deste mundo contemporâneo é conceito de rede. Este não é um conceito novo que surge somente neste final de milênio. No entanto, é a partir da segunda metade deste século ele passa a ganhar uma dimensão mais planetária, ampliando-se de forma considerável. É importante aprofundá-lo articulando-o com o desenvolvimento crescente das tecnologias de comunicação e informação para, com isso compreendermos sua relação com a educação.
A idéia da primeira máquina que possibilitasse o processamento de dados de forma mais veloz vem do início do século, quando, em 1925, foi desenvolvida no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, a primeira máquina de calcular eletrônica.
Mas é somente a partir da segunda metade deste século que este intenso movimento de transformações científicas e tecnológicas se manifestam com mais intensidade, a partir da invenção do transistor, em 1947 por John Bardeen, Walter Houser Bratain e William Bradford. Esta novas descoberta começou a revolucionar o mundo das máquinas e dos equipamentos e, alguns anos depois, deu-se início à chamada miniaturização das tecnologias, promovendo um grande impulso em todo o desenvolvimento dos sistemas de comunicação em informação, com especial ênfase para a televisão.
Com este impulso, novas formas de comunicação foram introduzidas e, hoje, discute-se a televisão segmentada, a televisão interativa, o telecomputer, a automação dos sistema informacionais, as sinergias e megafusões de grandes empresas do mercado audiovisual e de comunicação. Estes intensos movimentos de transformações fazem com que atualmente uma única geração seja capaz de acompanhar o nascimento e a morte de uma tecnologia. Geroge Gilder e Nelson Hoineff são dois autores que fazem uma interessante retrospectiva deste alucinado movimento e são leituras indispensáveis para aqueles que querem compreender o que nos espera em termos de equipamentos de comunicação.
São muitas as tentativas de sistematização da evolução científica e tecnológica no mundo das comunicações. A invenção do transistor e o conseqüente desenvolvimento dos sistemas computacionais são sempre apontados como marcos importantes neste universo. Para Leila Dias , podemos analisar este recente desenvolvimento em três fases. A primeira, durante à década de 70, fez com que a informática fosse sendo gradativamente introduzida na sociedade mas, ainda como algo traumatizante, mais próximo da alquimia, com os computadores de grande porte (main frame), geralmente instalados em salas especiais, isoladas, centralizadas, com pessoal altamente especializado. A palavra básica que representaria este momento é a de um sistema basicamente centralizado. Quando em 1970 é lançado pela Canon no Japão o Pocktronic - o primeiro computador de bolso - percebe-se um movimento de transformação muito forte surgindo, durante esta década, o microprocessador (micro processing unit) e a CPU (Central Processing Center), conhecida como o cérebro do computador. Definitivamente, este cenário começou a ser transformado. Nasce assim a micro informática, constituindo-se na chamada segunda fase do recente desenvolvimento tecnológico. Implantam-se as redes, conectando computadores em tempo real. Ao longo da década de 80 instala-se a chamada terceira fase, com o aumento da capacidade de análise instantânea de dados paralelamente ao barateamento dos equipamentos. Este aumento de processamento dos dados e as pesquisas com vistas a uma maior integração dos computadores que cada dia mais se espalhavam pelo mundo, foi mais uma vez, mudando este cenário, dando especial impulso à história da humanidade. Novos atores entram em cena. Fala-se, então, em descentralização dos sistema, em redes interativas, em conexões em tempos reais.
A enorme diminuição dos custos dos equipamentos eletrônicos foi dando outro significativo impulso na área, com reflexos em toda a sociedade. Simultaneamente desenvolvem-se os equipamentos de conexões (comutadores, hubs, fibras, modens) e a indústria do software também busca atingir outro patamar e desenvolve-se de forma acelerada, dando especial ênfase ao desenvolvimento de programas para serem usados nas redes.
A Internet passa a fazer parte da realidade do mundo acadêmico e, rapidamente, vai se despontando como importante elemento de conexão entre equipamentos e, com isso, introduzindo novas formas de se produzir conhecimento e cultura. Ao estabelecer estas conexões entre equipamentos, estas redes começam, também, a estabelecer os links entre diferentes culturas que agora passam a ter a possibilidade, pelo menos potencial, de se comunicar, se expor, de intercambiar multi-relações entre sujeitos e máquinas.
O conceito de rede passa a ser um elemento chave deste momento e está sendo objeto de análise em diversos campos do saber. Ele ganha importância no mundo contemporâneo mas, como afirma Leila Dias, ele não é recente. Em eu texto Redes: emergência e organização ela recupera a trajetória deste conceito desde a segunda metade do século XIX, onde rede passa a assumir importante papel como elemento de organização dos territórios, em função da implantação das grandes malhas ferroviárias que cortam os Estados Unidos da América de costa à costa, introduzindo novos elementos culturais, com reflexos na organização de todo o sistema social.
No mundo contemporâneo, novamente, as redes, agora não mais malhas ferroviárias mas malhas óticas e eletromagnéticas, voltam a se constituir em elementos estruturadores de territórios, de novas formas de agir, pensar, sentir. Alguns elementos deste conceito de rede precisam ser aprofundados porque, assim como Castells, acredito que vivenciamos o nascimento de uma sociedade rede (Castells, 1996). Para a perspectiva deste trabalho considerarei como básico o texto de Castells A Era da Informação: economia, sociedade e cultura, e o trabalho de sistematização feio por Tamara Benakouche em sua pesquisa sobre o papel das telecomunicações na criação do espaço urbano. Benakouche considera como característica básica das redes de telecomunicações a conexidade, a conectividade, homogeneidade, isotropia e nodalidade. A conexidade é a propriedade essencial de uma rede pois é ela quem garante a relação entre os subsistemas que compõem a rede. É ela que garante, portanto, a coesão do sistema. Para ela, um exemplo de uma rede fortemente conexa seria a rede viária dos países desenvolvidos. A conectividade é a ligação entre os elementos deste sistema, que nos remete á idéia de circulação. "Uma forte conectividade conduz a uma espécie de supra-conexidade, ampliando as malhas da rede e reforçando seu caráter solidário vis-a-vis do sistema" (Dupuy apud Benakouche, 1995). Outra característica das redes é a homogeneidade, "envolve a idéia de correlação espaço-temporal e traduz a coerência no tempo ou em um espaço das entradas e saídas entre os elementos do sistema." A isotropia é a característica que nos possibilita ver a rede enquanto um conjunto homogêneo e, portanto, também tem a ver com esta correlação espaço-temporal. "De uma maneira geral, isotropia (ou grau de isotropia) da rede significa que todas as ligações da rede são equivalentes do ponto de vistas das relações estabelecidas entre os elementos do sistema (ou com o meio ambiente)" (Dupuy apud Benakouche, 1995 – grifo meu). Por último, a nodalidade que é a característica da rede que "permite caracterizar os nós da rede do ponto de vista de sua capacidade relacional para o sistema" (Benakouche 1995).
Castells analisa a presença das tecnologias na sociedade contemporânea buscando compreender melhor quais são as características que constituem o coração do paradigma da tecnologia da informação. Para ele, são cinco estas básicas características. A primeira é que a informação é a própria matéria bruta deste paradigma tecnológico. Um segundo elemento caraterístico é a "penetração dos efeitos das novas tecnologias". Para ele, "porque a informação é parte integral de toda atividade humana, todos os processos de nossa individual ou coletiva de existência são diretamente afetados (embora certamente não determinados) pelos novos meios tecnológicos" (p.62). A terceira característica, que é umas das mais fundamentais para a perspectiva deste texto, é a existência de uma lógica própria das redes de comunicações. As demais características são a flexibilidade e a convergência das tecnologias específicas num sistema altamente integrado, no qual, cada tecnologia separadamente, torna-se absolutamente indistinguível (p.62).
Todas estas características são apontadas como fundamentais por estes autores e, aqui, destaco a importância da idéia de equivalência. Ela é fundamental no atual contexto mundial uma vez que não podemos imaginar a implantação destes modernos e velozes complexos de comunicação digital se continuarmos a pensar que estas redes se instalam sobre espaços vazios. Ao contrário, como afirma Dias, as redes se instalam sobre uma realidade complexa e não em espaços virgens (158). Neste sentido, torna-se urgente compreender que a implantação e ampliação destas redes de comunicação, pressupõe a existência de nós fortalecidos (valores/culturas locais) e, principalmente, com alto nível de visibilidade e flexibilidade. Visibilidade e flexibilidade estas que só serão conseguidas se, além da necessária presença dos elementos técnicos básicos (fios, cabos, linhas telefônicas, satélites, trasnponders, televisões, computadores, centrais de comunicação), tivermos ao mesmo tempo os elementos culturais produzidos e amplificados a partir das culturas locais.
É, portanto, fundamental estabelecer uma mais ampla compreensão deste conceito e destas relações, agora introduzindo uma nova e básica relação, uma relação entre o que chamo de local e não-local (*). Considero-a básica para a compreendermos o papel da escola nesta virada de milênio uma vez que entendo só ser possível sobreviver com autonomia e independência num mundo de conexões como a que estamos a nos referir até aqui, aqueles povos e culturas que conseguirem estabelecer relacionamentos com o conjunto da rede de forma intensa e com valores culturais locais potencialmente fortes para serem disponibilizados e interagirem com o conjunto. Isso porque, como afirma Castells, "as redes constituem a nova morfologia social de nossas sociedades e a difusão desta lógica de rede modifica substancialmente os processos e os resultados de produção, experiência, poder e cultura" (Castells, 1996, p. 467). Obviamente acrescento aqui a educação.
Impasse para a educação
Estes novos paradigmas tecnológicos, com a informatização veloz e quase generalizada da sociedade está presente em todo o mundo e, mesmo em países como o Brasil, onde as desigualdades sociais e regionais são muito grandes, ele é determinante, principalmente em termos de mercado de trabalho nos grandes centros urbanos.
Países como o Brasil, vivem contradições profundas em seus sistemas sociais ao mesmo tempo que estão inseridos plenamente nos mercados planetários, em determinadas e específicas áreas. Sem dúvida, o exemplo mais significativo em todo o mundo está relacionado aos sistemas de comunicação e informação. Em relação a isso, o Brasil está plenamente inserido neste mercado planetário, estando o maior grupo de comunicação brasileiro - a Rede Globo de Televisão - associado a um dos cinco maiores conglomerados de comunicação do mundo. A Rede Globo de Televisão - mídia eletrônica do conglomerado da família Roberto Marinho - está associada ao grupo liderado pelo magnata australiano Rupert Murdoch, integrando um complexo multimediático que inclui o The New York Post, The Times, BSkyB, Delphi Internet, Twentieth Century-Fox, Harper Collins (Editora),a Sky Latin America International Broadcast Center, TCI (uma das operadoras líderes de TV a cabo e telefonia nos Estados Unidos), entre outros.
Obviamente quando pensamos no sistema educacional, a situação é absolutamente diversa. Esta distância entre o mundo da informática e da comunicação com o mundo da educação é muito grande, induzindo-nos a pensar na quase existência de um impasse. Tem sentido continuarmos investindo neste sistema que não consegue dar conta destas transformações? Está claro que necessitamos de muito mais do que simplesmente aperfeiçoar o sistema educacional. O momento exige a sua profunda transformação estrutural deste sistema. Uma transformação, que passa, necessariamente como venho expondo aqui, pela sua maior articulação com os sistemas de informação e comunicação.
Isto porque, neste contexto de mudanças, somos verdadeiramente empurrados para pensar e refletir mais profundamente como pode se sustentar este sistema, ainda centrado em velhos paradigmas, muitas vezes enfatizando apenas a formação de uma mão de obra, sem nem mesmo perceber que esta mudando o conceito de mão de obra, num movimento de velocidade muito intensa.
Como afirmava Francisco de Oliveira na abertura de a reunião anual da ANPEd em 1990:
Num mundo que corre com esta velocidade, com transformações que não esperam amanhecer o dia para serem anunciadas, uma inserção rápida da economia brasileira no sistema internacional, com estes critérios seguramente vai nos conduzir não mais para uma exploração de mão-de-obra barata, porque não se está mais atrás disso: tecnologia de ponta não se faz com mão de obra barata (Oliveira, 1990, p.12).
Passados mais de oito anos desta fala de Francisco de Oliveira, continuamos a perceber um caminhar nesta direção. Ana Leda Barreto, analisando os Parâmetros Curriculares Nacionais, um das principais bandeiras do governo de Fernando Henrique Cardoso, elaborados sob forte crítica da comunidade acadêmica nacional, reforçava-se a necessidade de um sólida formação dos profissionais da educação, como sendo básica para a transformação deste sistema. Segunda ela,
Não é mais possível em mais uma proposta de governo ser "esquecida" a obrigação dos dirigentes da nação com a formação sólida e continuada dos principais formadores de mentalidade do país. Tal esquecimento nos faz pensar que a desqualificação das professoras e professores foi é um dos mecanismos 'para mantê-los fracos e disponíveis à manobras e conchavos políticos-burocráticos' (Arroyo, 1985, p. 9) formando outros cidadãos e cidadãs fracos e disponíveis às mesmas manobras e conchavos (Barreto, 1996, p. 4).
Assim, a transformação do sistema educacional passa, necessariamente, pela transformação do professor. Não podemos continuar pensando em formar professores com teorias pedagógicas que se superam quotidianamente, centradas em princípios totalmente incompatíveis com o momento histórico. Nossos currículos, programas, materiais didáticos, incluindo os novos e sofisticados multimídias, softwares educacionais, vídeos educativos, continuam centrados em três grandes falácias, como afirmou Emilia Ferreiro para a Revista TV Escola. Segundo ela, insistimos ainda que a aprendizagem deve se dar sempre do concreto para o abstrato, do próximo para o distante e do fácil para o difícil (MEC 1996). Mantendo esta perspectiva, evidentemente não conseguimos compreender as transformações contemporâneas que estão modificando todos os campos, do trabalho, do lazer, do social, do saber e, seguramente, também da educação.
Continuar adotando esta perspectiva é desconhecer completamente as transformações que estamos vivendo no mundo contemporâneo e os novos elementos que estão fazendo parte da realidade de nossos jovens e adolescentes.
Precisamos compreender mais de que forma esta geração X (novas tribos) convive simultaneamente com os vídeo-games, televisões, Internet, esportes radicais, tudo simultaneamente, de forma múltipla e fragmentada, tudo ao mesmo tempo. Esta geração já relaciona-se com as novas medias de forma diversa e já existem sinais de um novo processo de produção de conhecimento, ainda desconhecido pela escola.
Para Douglas Rushkoff, ao analisar como a cultura das crianças nos ensina a prosperar na era do caos, essa geração se utiliza das diversas mídias não à procura de respostas mas sim de perguntas. Elas entendem a discontinuidade e o que ela significa e conseguem estabelecer com ela uma relação de produção de conhecimento. "Para a audiência jovem, a discontinuidade das mídias não uma exceção, é a regra" (Rushkoff, 1996, p. 14).
Estas transformações tecnológicas que tomaram grande impulso justamente com o desenvolvimento nos idos da década de 60 dos videogames - jogos eletrônicos que se utilizavam de velhos consoles conectados a antigos televisores – toma impulso e passa a impulsionar, simultaneamente, o próprio desenvolvimento científico, como já foi apontado no início deste texto. Mas também este desenvolvimento, não se dá e não se deu de forma estanque e isolada.
A ciência moderna, que no início do século sofre os abalos das teorias da relatividade de Einstein, desde este momento começa a trabalhar com base em outros paradigmas.
Passa-se a trabalhar na perspectiva de compreender a complexidade do mundo contemporâneo, sem a preocupação da unificação, das meta-unificações. Segundo o físico Italiano Marcello Cini o que vemos hoje, olhando a evolução da ciência, é uma grande mudança de concepção.
Passou-se, em vez disso, a uma concepção de mundo em que, em vez de se tentar reduzir tudo à ordem, regularidade e continuidade, emergem categorias e perspectivas completamente opostas. Estudam-se a desordem, a irregularidade, os fenômenos que não se repetem, em vez de tentar unificar fenômenos muito diferentes pela explicação resultante de uma única lei fundamental. A individualidade começa a ser reconhecida, por exemplo, no fato de que sistemas estruturalmente idênticos podem revelar comportamentos radicalmente diferentes, ocasionados apenas por pequeníssimas diferenças que, até então, todos consideravam como sendo não essenciais.(Cini, 1998)
Compreender os novos processos de aquisição e construção do conhecimento é básico para tentarmos superar este impasse. Esta compreensão, por outro lado, empurra-nos necessariamente para considerar como fundamental a introdução das chamadas tecnologias da comunicação e informação nos processos de ensino-aprendizagem.
No entanto, a pura e simples introdução destas tecnologias não é garantia desta transformação. Esta introdução é, portanto, uma condição necessária mas não suficiente para que tenhamos um sistema educacional compatível com o momento histórico. Desta forma, introduzir estas tecnologias exige compreender de forma mais ampla a necessidade de fortalecer os nós - as unidades escolares que por sua vez articulam-se intensamente com os valores locais - de tal forma a dar maior visibilidade aos nós desta rede, aumentando concomitantemente a conectividade entre estes nós, estabelecendo-se com isso as rede de conexões que estão sendo referidas ao longo deste texto. E, mais ma vez, não basta apenas a rede física.
A escola, conectada, interligada, integrada, articulada com o conjunto da rede, passa a ser mais um elemento vital deste processo coletivo de produção de conhecimento. Nesta navegação, portanto, percorremos caminhos ilimitados, sem fronteiras. Como diz Pierre Lèvy,
Navegar no ciberespaço eqüivale a passear um olhar consciente sobre a interioridade caótica, o ronronar incansável, as banais futilidades e as fulgurações planetárias da inteligência coletiva. O acesso ao processo intelectual do todo informa o de cada parte, indivíduo ou grupo, e alimenta em troca o do conjunto. Passa-se então da inteligência coletiva para o coletivo inteligente. (Lèvy, 1996, p. 117 – grifo meu)
Como já dito, esta passagem não corresponde apenas à um aperfeiçoamento do sistema educacional. Ela exige uma transformação profunda, impondo, consequentemente, a implantação de políticas educacionais coerentes com as transformações da sociedade como um todo e não simplesmente articulados com uma perspectiva de modernização do sistema.
Um olhar sobre os projetos governamentais
A história recente da educação no Brasil é repleta de projetos governamentais que exigem uma leitura um pouco mais atenta dos imbricados movimentos que relacionam as políticas educacionais, culturais, científicas, tecnológicas e de comunicação. Não está no escopo deste texto aprofundar estas análises em todas as suas múltiplas dimensões mas sim resgatar alguns elementos significativos para o entendimento de como estas políticas estão – ou deveriam estar! - afetando diretamente a escola.
O governo Fernando Henrique Cardoso avança de forma decidida e veloz na privatização de estatais, destacando-se aí a área das telecomunicações. Paralelamente, desde o final da década passada, vem se implantando no país um sistema de rede, através do Ministério da Ciência e Tecnologia, com a criação da Rede Nacional de Pesquisa (RNP), introduzindo de forma definitiva a Internet no país. Inúmeros decretos foram promulgados com o objetivo de identificar e estimular possíveis usos na área educacional deste sistema de rede. O mesmo foi feito décadas atrás com o sistema de comunicação via satélites geoestacionários. É da memória da educação brasileira o pioneiro Projeto SACI, desenvolvido no Rio Grande do Norte no final de década de 60, já analisado por Laymert Garcia dos Santos em seu livro Desregulagens . Àquela época, pensava-se em introduzir um sistema de educação básica, com aulas sendo transmitidos via satélite, num projeto desenvolvido pelo Instituo Nacional de Pesquisa Espaciais, o INPE, com forte articulação com o governo americano.
Alguns anos depois (1986), como já descrevi anteriormente o governo federal tenta novamente implantar um projeto como o SACI, instituindo uma Comissão Interministerial para estudar a viabilidade de implantação de um sistema de educação básica via satélite.
No âmbito do Ministério da Educação, o atual governo vem implantando dois grandes projetos: o TV Escola e o Projeto de Informatização das escolas públicas brasileiras (PROINFO). Não cabe aqui, fazer uma longa descrição destes projetos mas acho importante destacar alguns aspectos dos mesmos analisando o discurso oficial que busca respaldar teórica e politicamente a introdução destas novas tecnologias de comunicação e informação na educação. Considerarei para esta análise basicamente as declarações públicas do Ministro e de seus Secretários, aos órgãos de imprensa nacional e tomando como base o artigo do próprio Ministro, publicado no jornal Folha de São Paulo em 2 de março de 1997. No referido artigo o Ministro propunha-se analisar o caso de sucesso do Projeto TV Escola e, assim fazendo, expôs de forma clara o que considero um dos pontos que mereceria uma profunda revisão nesta área. O próprio título do artigo, TV Escola: construindo um caso de sucesso, já mereceria uma análise mais profunda. No entanto, é no conjunto do texto que percebemos a insistência no uso de palavras como recurso e treinamento e que, somado a outras manifestações públicas do MEC, indica-nos claramente a perspectiva instrumental da introdução destas novas tecnologias. O artigo do ministro buscava analisar o TV Escola e exatamente ao fazer a referência ao outro grande projeto para a área, o de informatização, deixava evidente a perspetiva equivocada desta política educacional. Vejamos as palavras do ministro:
neste sentido deste o início do governo Fernando Henrique que traçamos a estratégia de médio prazo que contemplou, inicialmente, o uso da televisão como recurso para a atualização de professores e para o apoio ao seu trabalho na sala de aula.
O próximo passo será a introdução do computador das escolas públicas de 1° e 2° graus. Trata-se, entretanto, de dois programas totalmente distintos em seus objetivo, abrangência e metodologia de implantação (Souza, 1997, grifos meus).
Os trechos grifados são destaques que gostaria de comentar aqui. A utilização como recurso, a meu ver, indica claramente esta perspectiva instrumental que me referi anteriormente, uma vez que parte do pressuposto, implícito, de que o sistema educacional está com seu caminho definido faltando portanto apenas atualizar os professores. Percebe-se claramente a existência de uma lógica linear de prioridades e não de simultaneidade, evidenciado no segundo parágrafo acima citado. Ao tratar os dois projetos, o TV Escola e o PROINFO, como projetos "distintos em objetivo, abrangência e metodologia", o MEC atesta com todas as letras, letras de seu ministro e grande mentor destas transformações, o seu equivoco. Entende, claramente, as tecnologias como suporte, como instrumento, como material de apoio a um processo que está com suas bases teóricas comprometidas. Não consegue o MEC perceber a necessidade de interdependência destes projetos e deste com outros, como o projeto da Fundação Roquete Pinto para o Um salto para o Futuro. Novamente aqui vemos a dicotomia presente nestes projetos, uma vez que no lugar de se fortalecer os sistema de televisão pública brasileira, insiste-se em segmentar, em partir, em tratar como distintos e diversos coisas que são, pela própria natureza, parte de um processo maior e, principalmente, integrado e integrador. O exemplo do Salto é gritante. Pega-se o canal do satélite (transponder) usado pelo sistema de TVs Educativas, divide-o em dois, diminuindo claramente a qualidade do sinal gerado e recebido tanto pelo sistema de TVs Educativas como pelo TV Escola e, coloca-se no ar uma programação de apenas três horas, repetidas incansavelmente ao longo do dia com o argumento de que os professores possam gravar e montar as videotecas escolares. Das oito da noite às oito da manhã temos simplesmente 12 horas de um canal de satélite completamente sem uso. Se é apenas este o objetivo - três horas de programação! - porque não garantir com as TVs Educativas a sua veiculação, que inclusive é em boa parte já produzida e veiculada pôr elas mesmas, em horários alternativos, canalizando o conjunto dos recursos para o fortalecimento deste sistema de televisão que, potencialmente, garantiria a produção de imagens com a verdadeira cara do país. Imagens e informações que estariam colocando os lugares não virgens em permanente troca com as regiões do país. Paralelamente, estaríamos colocando os postos do Salto, interligados à Internet e, com isso, garantindo de fato, a tal interatividade tanto falada e tão pouco vivenciada neste projeto.
Se, por outro lado, adotamos como estratégia a divisão do transponder para implantação de um canal exclusivo para a educação (e não para o Ministério!) porque não disponibilizar estas 12 horas vazias para grupos e associações de educadores, universidades, associações comunitárias, sindicatos ou mesmo porque não ocupá-lo com uma programação cultural articulada com o Ministério da Cultura com filmes e programas de maneira a fortalecer nas escolas, em todo o país, a perspectiva de transformá-las em espaço vivo de produção de cultura e de conhecimento, estimulando uma maior integração com a comunidade.
Integrar todos estes projetos e, com eles, fortalecer a escola e os professores não é , tenho certeza, tarefa simples. Principalmente porque estes projetos nasceram como fruto de ações quase antagônicas. Antagônicas a nível do próprio MEC e também deste com os demais ministérios como o da Cultura, Comunicação e Ciência e Tecnologia.
Neste último aspecto é interessante retomar a questão da rede, analisando um pouco mais o processo de privatização da telefonia brasileira. Este processo de privatização foi regulado pela Lei 9.472, a Lei Geral das Telecomunicações (LGT)(**) de julho de 1997. Nesta lei, de forma tímida, é verdade, estava previsto, no artigo 81, a criação do Fundo de Universalização dos Serviço de Telecomunicações (FUST). De acordo com o texto da lei, o FUST é um "fundo especificamente constituído para essa finalidade, para o qual contribuirão prestadoras de serviços de telecomunicações nos regimes público e privado, nos termos da lei" a partir de uma regulamentação que tramita de forma lenta e que não ocorreu, como era de se esperar, antes da venda das empresas.
Este fundo, em teoria, tem como função básica possibilitar que camadas que não tenham recursos próprios para ter acesso à telefonia e acesso à Internet de forma privada e direta, possam ter acesso através de mecanismos sociais mais amplos. Como afirma Tadao Takahashi, ex-coordenador da RNP no Brasil em artigo que circulou na lista EAD,(***) "é evidente que, na política de telecomunicações de um pais, é desejável ter formas de induzir determinados serviços para, extrapolando a fria lógica comercial, buscar atingir fins socialmente úteis. Por exemplo, aumentar o acesso a telefonia por parte das classes D e E" (Takahashi, 1997).
Ampliar este acesso é fundamental e neste sentido, a conexão das escolas, bibliotecas e postos de saúde públicos, poderiam se constituir, como em outros países, numa forma de propiciar esta universalização do acesso.
E novamente Takahashi quem exemplifica isso com a situação americana.
O Telecommunications Act de 1996 nos EUA definiu a obrigação de universalização de acesso a serviços de telecomunicações. Após regulamentação, a coisa resultou em um subsídio para acesso mais barato por parte de escolas e bibliotecas à serviços de telecomunicações (especialmente Internet), até um limite de $2.25 bilhões de dólares anuais!(Takahashi, 1997) .
No Brasil, as mobilizações e articulações visando uma maior democratização do acesso não se iniciaram com a LGT. Em verdade, desde o início da implantação da rede nacional de pesquisa, este sempre foi um dos pontos presentes. Não cabe aqui, fazer um percurso histórico desde o Código Brasileiro das Telecomunicações de 1962. No entanto, é no interior da própria documentação da Agência Nacional das Telecomunicações (ANATEL) que podemos ver, em apenas dois parágrafos, este percurso, escrito por Murilo Cesar Ramos, professor da Universidade de Brasília e mobilizador do grupo de trabalho da Agência, responsável pela discussão e acompanhamento do processo de transformação das telecomunicações brasileiras e sua relação com a educação.
O que se depreende do longo hiato entre a Lei nº 4.117/62 e o primeiro Decreto, de 93, e, depois, da rápida saraivada de decretos para tratar de tão singelo, ainda que fundamental, assunto para os destinos do país, é que até os dias de hoje o desafio da Educação não foi acolhido, mesmo que minimamente, pelo setor de telecomunicações.
Isto vai ficar ainda mais evidente com a aprovação, em julho de 1997, da Lei Geral de Telecomunicações que, apesar da sua sofisticação normativa, ignorou totalmente a tarifa especial oportunamente criada pelo legislador de 1962. E, ainda que se possa argumentar que a questão está contemplada no projeto do Fundo de Universalização das Telecomunicações, a polêmica que já começa a cercar a tramitação do referido projeto no Congresso Nacional sinaliza a continuidade do descaso com que o setor de telecomunicações tratou, até hoje, a questão da Educação.(Ramos, 1998)
Esta visão panorâmica da questão possibilita pensar nas necessidade de uma articulação política dos educadores, também no âmbito das políticas de telecomunicações.
É necessário avançar na questão das conexões. Mas isso não basta. As questões conceituais que sustentariam uma política de educação que contemplasse esta dimensão de produção do conhecimento e de cultura aqui referida, exige uma outra postura política. Exemplo antagônico poderia ser a entrevista do ministro Paulo Renato de Souza ao programa Hipermídia do Canal GNT, em julho de 1997. Falando sobre o PROINFO, o ministro mais uma vez afirmava a dificuldade de conexão das escolas à Internet e acenava como promissor futuro esta conexão com o objetivo dos professores acessarem um grande banco de dados do Ministério para receberam materiais didáticos.(****)
Como vemos, mais uma vez, a problemática da educação no mundo contemporâneo, não é mais somente objeto de análise exclusivo do próprio sistema educacional ou da comunidade acadêmica específica da área. A questão amplia-se de forma muito grande, e não se pode pensar que a simples presença de equipamentos – ainda que necessária e louvável enquanto iniciativa – associada a um programa de treinamento de professores darão conta desta transformação. Muito mais do que isto, é urgente perceber a necessidade da montagem desta estrutura de rede, que ainda é muito tímida nas políticas governamentais para a educação. E isto, numa forte articulação com outras áreas, tanto de governo quanto acadêmicas.
Um conclusão, ainda que provisória
Estas reflexões procuram dar conta de um processo em andamento. Tenho acompanhado e vivenciado a existência de espaços para correções de rota nestes projetos. Lamentavelmente eles estão sendo tocados sem o grande envolvimento das universidades públicas que muito tem refletido sobre estas temáticas. Existe hoje no país, uma massa crítica razoável de pesquisadores e pesquisas que já apontam alguns indicadores sobre o tema. Caberia ao governo fazer um esforço de articulação destas diversas vertentes, incorporando as críticas, de forma a corrigir a rota destes projetos e, de fato, construir um caso de sucesso na educação brasileira. Não apenas nas palavras e nos números mas na prática, atuando no país como um todo, que clama pôr transformações estruturais em diversas área. Este é, sem dúvida, o nosso grande desafio e estas novas tecnologias de comunicação e informação podem vir a se constituir em importante elemento destas transformações se pudermos vê-las em outra perspectiva que não a de simples instrumentos metodológicos mais modernos e que podem ser implantados de forma isolada e desarticulada, mantendo as crianças, jovens, adolescentes e professores como mero consumidores de um conhecimento pronto que passa agora a circular e ser entregue via as ditas novas tecnologias. Em oposição a isso, se pensamos nas tecnologias a serviço da produção de conhecimento e de cultura, podemos pensar na inserção do país no mercado mundial dito globalizado, numa outra perspectiva. Um perspectiva de efetiva cidadania.
31 de dez. de 2008
15 de nov. de 2008
Tecnologias
Como podemos ver a tecnologia é uma admiração para os nossos olhos e o desenvolvimento de nossa vida e do nossso ser no nosso dia-a-dia de nossa vida é uma deslunbraçao para nos, e cada vez que agente futrica nela agente fica cada vez mais admirado com ela, com o que ela pode fazer no nosso mundo e como ela pode facilitar nossa vida e nossa convivencia, isso tudo e graças as nossas coriosidade que as pessoas a populaçao, a sociedade tem de desenvolver nossa vida e com isso todos nos vamos descobrindo o que nao sabemos no mundo da gente. Como a tecnologia e uma coisa incrivel hoje ela ja esta assim no futuro ela estara bem mais facil e muito bem mais desenvolvida para todos nos,no caso todos vai ter a facilidade de ter ela na sua propria casa e estando desenvolvendo ela, e inovando ela a cada vez mais e melhorando ela para facilitar as nossas vidas no mundo que vivemos a tecnologia veio para nos ajudar e facilitar nossas vidas no nosso mundinho de tecnologias. A tecnolofia é uma coisa admiravel e assustadora. Embaixo vcs vão poder ver algumas figuras de tecnologias:
. Autor:Marcilei Borges dos Santos
. Autor:Marcilei Borges dos Santos
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http://www.borginhosantos.blogspot.com/
Subjetividade e Tecnologia: as Novas Máquinas Produtoras de Corpos
Subjetividade e tecnologia: as novas máquinas
produtoras de corpos
Carlos Camargos Mendonça_
Resumo: Este artigo1 pretende refletir
acerca da ampliação do entrelaçamento
entre o humano e a máquina através das
tele-tecnologias e da disseminação dos
dispositivos e da lógica hipertextual que
acabou por alcançar o próprio corpo, que é
submetido a todo tipo de operações: modelizado
por programas computacionais (no
domínio do cinema e das experimentações
artísticas), entregue ao jogo das aparências
e da simulação das identidades nos chats e
salas de conversação, conectado a próteses
artificiais, vasculhado em seu interior - mas
sem ser penetrado - pelas nanotecnologias
ou pelos programas de realidade virtual,
tornado lugar de implantes biotecnológicos,
ou então movido e afetado à distância por
meio dos dispositivos - técnicos e artísticos -
que se servem da telepresença. Poderíamos
afirmar que, mais do que objeto de desejo
(como comprovam todas as paixões eróticas
que pululam na Internet, das mais perversas
_Mestre em Comunicação Social, professor
do Departamento de Comunicação Social da Fafich/
UFMG e membro do Grupo de Pesquisa em Imagem
e Sociabilidade da Fafich/UFMG
1 Este artigo é uma versão ampliada do trabalho
apresentado no VIII Colóquio Internacional de Sociologia
Clínica e Psicossociologia, realizado no período
de 03 a 06 de julho de 2001, na Universidade Federal
de Minas Gerais, Brasil.
às mais inocentes), o corpo aparece aí como
um objeto de projeto - segundo a expressão
do artista australiano Stelarc.
O que pretendemos demonstrar ao longo
deste artigo é que, mesmo aí, quando falamos
do corpo e da sua hibridação ou interação
com a máquina, encontramos o vínculo
entre o socius e a subjetividade2, agora
sob a forma de um corpo partilhado a distância.
Desta maneira, consideramos que
as metamorfoses sofridas pelo corpo, seja
através do objeto artístico ou ainda pautadas
nas experiências tecnológicas, estão -
antes de mais nada - imbricadas em estratos
sócio-culturais, códigos culturais e fluxos
de espaço-tempo que além de modelizar
o corpo metamodelizam a subjetividade contemporânea.
A aproximação entre o corpo físico natural
e a máquina tecnológica está sendo elaborada
nas mais variadas instâncias de pesquisas
e estudos. O que nos chama a atenção é
não só o desenvolvimento de algoritmos que
2 Por subjetividade entendemos - com Félix Guattari
- o “conjunto de condições que torna possível que
instâncias individuantes e/ou coletivas estejam em
posição de emergir como território existencial autoreferencial
em adjacência ou em relação com uma alteridade
ela mesma subjetiva”. (Cf. GUATTARI. Caosmose,
p.19).
2 Carlos Camargos Mendonça
possibilitam a modelagem de diferentes tipos
de sólidos, mas também as criações conceituais
tais como aquelas da teoria da complexidade
ou surgidas das experimentações
estéticas que promovem a inter-relação entre
arte, corpo e tecnologia.
Peter Pál Pelbart, no início de sua obra A
vertigem por um fio, atenta para o fato de que
a fabricação social e histórica da subjetividade
não é um dado novo. Para ressaltar tal
constatação, o autor remonta à Nietzsche e
os métodos evocados por estes para dizer da
domesticação do corpo.
Recentemente se mostrou que a docilização
de um corpo pode recorrer a tecnologias
mais suaves, dispensando até
mesmo a violência direta, física... Novas
maneiras de moldar o corpo, modelá-lo,
marcá-lo, excitá-lo, erotizá-lo, obrigá-lo
a emitir signos etc. Não cabe aqui aprofundar
o sentido desta domesticação, da
qual, pelo visto, ainda nada vimos. Basta
lembrar que daí se depreende mais e
mais como um truísmo: se a forma do
homem, a forma do homem é uma modelagem
histórica complexa e mutante, não
há por que desesperar-se com a exclamação
do filósofo: ’estamos cansados do
homem’. O que o enfastia é o fato de que
o homem se tornou um verme medíocre e
insosso, e que esse apequenamento nivelado
se tornou meta de civilização...
É preciso seguir Nietzsche até o fim,
mesmo e sobretudo quando seus textos
sugerem que o homem aprisionou a vida,
e que é preciso livrar-se do homem para
libertar a vida...
Mas como liberar as forças aprisionadas
sob a carcaça atual do homem? É
uma guerra total, cruel, brutal e sofisticada
ao mesmo tempo, não menos violenta
talvez, do que aquela que deu origem
a essa forma que hoje se quer remover,
e cujo campo de batalha não é
outro se não o próprio corpo do homem,
desde seus genes até os seus gestos,
sua percepção, seus afectos. Nada
está decidido, pois o homem continua
sendo, conforme a definição de Nietzsche,
’o ainda não domado, o eternamente
futuro’. O retrato que Nietzsche nos lega
é também um chamamento: o homem, um
grande experimentador de se mesmo."
(PELBART.2001: 13)
Segundo Edgar Morin (1993), todo organismo
vivo é uma máquina que necessita,
para manter-se vivo, do trinômio matéria/
energia/informação exterior, sem desconsiderar
a utilização de seu patrimônio genético.
Computamos as informações exteriores
para garantirmos nossa sobrevivência.
Toda estrutura do mundo, seja ela uma célula,
um grande organismo vegetal ou animal
funciona como uma máquina computante.
Criamos autonomias e depedências
para nos mantermos vivos. Somos “seresmáquinas”.
O paradigma da “auto-organização” defendido
por Heinz von Foerster e por Henri
Atlan está presente no pensamento de Edgar
Morin. Para von Foerster, um dos fundadores
da cibernética, a criação da máquina artificial,
diferentemente da máquina natural,
não a capacita para auto-organizar seus programas
à medida em que esses são operados.
Máquinas artificiais dependem de constante
programação exterior. Essas máquinas não
são capazes de se auto-gerir ou mesmo de
efetuar algum tipo de pensamento. A imprewww.
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Subjetividade e tecnologia 3
visibilidade do pensamento humano não está
presente nos programas de computadores, o
que os impede de imitar a inteligência humana.
O armazenamento de dados matemáticos
e linguagens computacionais não configura
memória. O computador não tem memória,
tem apenas armazenamento de dados,
ele nunca descreverá suas memórias, conclui
o autor.
É através de noções como a de “seresmáquinas”,
de corpos híbridos, metamodelizados
por múltiplos agenciamentos maquínicos3,
habitantes do encontro virtual das redes,
que buscamos perceber uma possível
composição que organiza os novos modos de
subjetivação e de sociabilidade.
O surgimento das redes telemáticas e da
cultura digital, a criação do ciberespaço, a
proliferação das comunidades virtuais, as
mudanças no mundo do trabalho proporcionadas
pela inserção dos computadores nos
modos de produção e comercialização de
bens e produtos, as próteses eletrônicas utilizadas
na medicina ou mesmo as combinações
da engenharia genética são elementos
que modificam o nosso corpo. Os novos aparelhos
para exames médicos possibilitam ver
o interior do corpo sem cortá-lo; a ultrassonografia,
por exemplo, detalha formato, tamanho
e textura dos órgãos.
Pesquisas como a da Universidade de
Washington, nos Estados Unidos, são de-
3 Guattari denomina maquínico o estrato de sentido
formado por matérias expressivas heterogêneas,
não-linguisticamente formadas, mas ainda assim de
natureza semiótica. Substâncias de expressão heterogêneas
como as codificações biológicas ou as formas
de organização própria ao socius – como aquelas derivadas
de instituições como a família ou a escola –
atravessam, transversalmente, os domínios de sentido
propriamente linguísticos. A esse respeito, cf. Caosmose,
p.35-38.
senvolvidas, desde o início de 1998, com
o objetivo de criar procedimentos cirúrgicos
através de realidade virtual. A universidade
de Simom Fraser, em Burbanaby, no
Canadá, também pesquisa cirurgias em ambientes
virtuais. Na California, Estados Unidos,
a Computer Motion, empresa que desenvolve
braços robóticos, desenvolveu o robô
Zeus. Com três braços, ele auxilia e melhora
a operação médica. Dados como estes indicam
que o corpo humano está passando por
transformações, seja na sua relação com as
máquinas, seja na sua inter-relação com o
outro mediada pelas tecnologias. Para André
Lemos
Vivemos hoje, sem dúvida, um processo
de conversão do mundo em dados binários.
A artificialização avança com o digital,
atravessando todos os aspectos da
cultura comtemporânea. É neste contexto
que pode surgir o discurso sobre
os cyborgs. Embora seja fruto de processos
ancestrais da simbiose homemtécnica,
o cyborg só pode existir num
mundo traduzido em bits. Não é a toa que
o corpo passa a ser uma superfície de escrita
de vários ‘textos’; um grande hipertexto,
desaparecendo enquanto corpo natural
(processo de hiper-exteriorização
com prótese, nanotecnologia, vacinas; e
hiper-interiorização - construção de subjetividade).
(LEMOS. 1998: 54)
Tal como escreve André Lemos, os
processos de hiper-exteriorização e hiperinteriorização,
por sua vez, adquirem força
na aproximação entre o corpo físico natural
e as máquinas tecnológicas. A hiperexteriorização
ganha um relevo considerável
na modelização informática do corpo.
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4 Carlos Camargos Mendonça
As tecnologias não inauguram simplesmente
um corpo imaginário, desejado, elas nos proporcionam
um corpo até então não imaginado:
o cibercorpo.
Para o artista australiano Stelarc, estamos
estendendo as capacidades do corpo com o
uso das tecnologias. Em suas performances,
o artista utiliza a combinação de próteses e
de estímulos nervosos a partir de corrente
elétrica sobre seu corpo, buscando uma imbricação
entre movimentos voluntários, involuntários
e programados. “O corpo não
como sujeito, mas como um objeto – não um
objeto de desejo, mas um objeto de projeto.”
(STELARC.1997:55)
A biotecnologia está nos dando novas dimensões
da interioridade e da exterioridade
do corpo físico natural. O corpo adquire uma
nova espessura, no ciberespaço ele se torna
híbrido, misturando os componentes do humano
e da máquina. Paul Virilio dedica um
capítulo de seu livro A Arte do Motor à discussão
da relação entre os novos dispositivos
tecnológicos e o corpo físico natural. Partindo
do super-homem nietzscheano e chegando
até o superexcitado Stelarc, Virilio
analisa o que ele denomina “intra-estrutura”,
istó é, a inseminação do corpo físico humano
pelas biotecnologias, possibilitada pelo desenvolvimento
da nanotecnologia.
Paul Virilio comenta que a nanotecnologia
está propiciando uma colonização do corpo,
produzindo até mesmo uma invasão microfísica
do corpo e surgindo assim como último
recurso, ou recurso de ponta, para domesticar
o homem. Segundo ele, houve uma modificação
no espaço ocupado pelas tecnologias
de ponta, que deixou de ser o universo
sem fronteiras do ambiente planetário para
ocupar nossos órgãos. “A perda, ou mais
exatamente, o declínio exclusivo da ausência
de intervalo das teletecnologias do tempo
real resulta inevitavelmente na intrusão intraorgânica
da técnica e de suas micromáquinas
no seio do que vive.”(VIRILIO.1996:92)
O “corpo-próprio” sofre o ataque da biotecnologia
– que agora é capaz de povoar
as entranhas do sujeito. As novas técnicas
suplantam revoluções como a industrial e a
provocada pela transmissão imediata de informação
pelos meios de comunicação de
massa. A revolução de agora é a dos transplantes,
que têm em si o poder de povoar o
corpo vital com técnicas estimulantes, afirma
Virilio.
Se durante toda a sua história a técnica
se desenvolveu no sentido do corpo geofísico,
agora ela caminha na direção do corpo
físico, excitando-o e estimulando-o ao máximo
como forma de compensação diante da
inércia a que está condenado pelas modernas
formas urbanas de vida:
Não se pode descrever melhor o estado
dos lugares de nossa pós-modernidade
onde os superexcitantes são prolongamentos
de uma sedentaridade metropolitana
em vias de generalização acelerada,
notadamente graças a essa teleação
que substitui doravante a ação imediata...
A inércia, a passividade do homem
pós-moderno exige um acréscimo
de excitação, não somente através das
práticas esportivas abertamente desnaturalizadas,
mas também no caso de atividades
cotidianas em que a emancipação
corporal devida às técnicas da teleação
em tempo real liquida as necessidades
tanto de vigor quanto de esforço
muscular. (VIRILIO.1996:93)
As mudanças que hoje atingem o corpo
vão muito para além das transformações prowww.
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Subjetividade e tecnologia 5
porcionadas pela cirurgia plástica. Um novo
projeto de corpo redimensiona o velho modelo
de carne e osso para colocá-lo mais próximo
da hibridação homem-máquina. Um
novo tecido cobre a pele, desnudada e penetrada
por aparelhos bio-tecnológicos: “O
corpo hoje pode ser construído, apagado,
restaurado. Já não há mais verdade no
corpo”, afirma o artista multimídia e professor
da The School of the Art Institute of
Chicago (EUA) Eduardo Kac, em entrevistas
ao Jornal Folha de São Paulo na abertura
da exposição “Arte Suporte Computador”, na
Casa das Rosas, em São Paulo, no dia 11 de
fevereiro de 1997.
Às 21h30 daquele dia, em uma maca, Kac
tomou uma anestesia local para fazer uma
incisão com bisturi no tornozelo esquerdo e
implantou ali um chip como parte da obra
Time Capsule. O chip, que ficará no corpo do
artista para sempre, tem o tamanho de 15mm
x 2 mm e trazia um número aleatório que poderia
ser decodificado: 026109532. A operação
foi transmitida ao vivo pela TV Cultura
de São Paulo e pela internet. Para o artista, o
implante fazia parte de um trabalho de arte e
não foi apenas uma cirurgia.
Em outros trabalhos seus, como o Ornitorrinco,
por exemplo, um robô pode ser operado
a distância e em tempo real via internet.
Desse modo, o espectador pode explorar, à
distância, o espaço no qual o robô está.
Os elementos imateriais são mais adequados
para o meu trabalho: luz, lugares
remotos e diferentes zonas temporais,
conversações orais, videoconferências,
navegação robótica, multiplicidade
dos espaços virtuais, sincronicidade, interação
humano/máquina, interação animal
e planta, interação humana e animal
mediada por telerrobôs, e transmissão,
recepção e troca de informações digitais.
(KAC.1997:322)
Por meio dessa estranha interação entre as
máquinas e os seres vivos (animais e humanos)
as obras de Kac colocam em coexistência
elementos do espaço virtual e do real
na busca de expandir o corpo físico natural
através do espaço eletrônico e das diferentes
formas de tele-ação. Um corpo feito feito
de perceptos e afetos mutantes4. A título de
ilustração sobre os perceptos e afetos mutantes,
desencadeados pelas hibridações entre
os corpos e as máquinas, podemos nos lembrar
do filme Matrix. Nessa obra, a vida é
uma ilusão produzida por dispositivos tecnológicos
operados por um grupo de inteligências
artificiais que se rebelou contra os humanos.
No ciberespaço foi criada uma reprodução
do mundo físico natural e os humanos
são usados, sem saber, como fonte de energia
para as máquinas. Aqueles que conseguiram
se libertar - ou se desconectar, como dizem
eles - usam a grande rede para fazer a passagem
de seu mundo físico para o mundo possível
(segundo a caracterização de Eco para
a ficção científica5) representado pelas redes.
Quando se servem desse processo, uma to-
4 Segundo Deleuze e Guattari, perceptos e afetos
são seres de sensação que transbordam o vivido e a
própria percepção, e se conservam nos diferentes materiais
da arte. Enquanto o percepto é aquilo que nos
arranca das percepções vividas, o afeto é aquilo que
nos revela os devires não-humanos do homem. Cf.
Deleuze, Guattari. O que é filosofia? p. 216-217
5 Para Eco, a metatopia ou metacronia é denominação
mais apropriada para a ficção científica. Esse
tipo de narração remete, imediatamente, a uma visão
de tempo futuro: "Metatopia ou Metacronia: as épocas
retratadas nas obras representam um tempo futuro
que, por mais diverso que seja do real, é possível
e verossímil porque as transformações a que foi
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6 Carlos Camargos Mendonça
mada cheia de microsoftwares implantada na
nuca permite a conexão do corpo com a rede
informática chamada Matrix. Nessa rede, o
corpo pode adquirir qualquer forma ou função,
ser construído ou reconstruído quantas
vezes for necessário, desde que não sofra nenhuma
ação letal. O corpo de quem não se
libertou da grande rede está preso em cápsulas,
apenas a mente trabalha estimulada pela
ilusão de que está tendo uma vida comum.
Identificamos aí um tipo de Corpo sem Órgãos
(CsO).
Deleuze e Guattari definem o Corpo sem
Órgãos - CsO, do seguinte modo:
Um CsO é feito de tal maneira que ele só
pode ser ocupado, povoado por intensidades.
Somente as intensidades passam
e circulam. Mas o CsO não é uma cena,
um lugar, nem mesmo um suporte onde
aconteceria algo. Nada a ver com um
fantasma, nada a interpretar. O CsO faz
passar intensidades, ele as produz e as
distribui num spatium ele mesmo intensivo,
não extenso. Ele não é espaço e nem
está no espaço, é matéria que ocupará o
espaço em tal ou qual grau – grau que
corresponde às intensidades produzidas.
Ele é a matéria intensa e não formada,
não estratificada, a matriz intensiva, a
intensidade = 0, mas nada há de negativo
neste zero, não existem intensidades
negativas nem contrárias. (DELEUZE e
GUATTARI.1996:13)
O CsO é uma experimentação inevitável,
que põe em contato o corpus e o socius concedendo
aos órgãos uma outra função, modificando
sua função natural, permitindo ver
submetido nada mais fazem do que complementar as
linhas de tendência do mundo real." (ECO.1989:168)
com a pele ou sentir com os olhos, tal como
fizeram em diferentes ocasiões, em suas experimentações
literárias, criadores como Artaud,
William Burroughs, Carlos Castañeda
e Henry Miller. Para Deleuze,
do mesmo modo como o mecânico supõe
uma máquina social, o próprio organismo
supõe um corpo sem órgãos,
definido por suas linhas, seus eixos e
seus gradientes, todo um funcionamento
maquínico distinto das funções orgânicas
sociais tanto quanto das relações mecânicas.
(DELEUZE. 1998.p.122)
Atualmente, modificações profundas
emergem dos novos modos de relação
humana, não só com referência aos corpos
que habitam o ciberespaço, mas também no
que diz respeito ao cotidiano, nas interações
simples do dia a dia. As ingerências das
mutações tecno-científicas nas sociedades
complexas desse fim de século reconfiguram
a ecologia social. Guattari afirma que a
ecologia do virtual se faz tão necessária
ao mundo de hoje quanto a ecologia do
mundo natural e humano. Segundo ele, as
artes nos servem como ricos instrumentos
e como paradigmas de referência para
as novas práticas sociais. A ecologia do
virtual, aliada à ecologia do mundo natural e
humano, produzirá a ecologia geral ou, nos
termos do autor, a ecosofia, que
agirá como ciência do ecossistema, como
objeto de regeneração política mas também
como engajamento ético, estético,
analítico, na iminência de criar novos
sistemas de valorização, um novo gosto
pela vida, uma nova suavidade entre os
sexos, as faixas etárias, as etnias, as raças...
(GUATTARI.1993a:116)
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Subjetividade e tecnologia 7
Quando levamos em conta os perceptos e
afetos mutantes, produzidos na conformação
do cibercorpo - com suas infinitas interfaces
que se desdobram em interioridade e
exterioridade - percebemos os agenciamentos
hipercomplexos que compõem o corpo
meio-objeto meio-sujeito a que estamos nos
referindo. Nesse corpo, modificado pela tecnologia
não só no seu aspecto físico, mas
também na sua estrutura psico-social, os velhos
órgãos se expandem e se retraem para
produzirem novos movimentos e estímulos
que configuram uma subjetividade que aproxima
o humano e as máquinas.
Deleuze e Guattari nos apresentam uma
pequena procissão de corpos: o corpo hipocondríaco,
o corpo paranóico, o corpo esquizo,
o corpo drogado e o corpo masoquista.
Tomemos como referência, nesse
momento, o corpo drogado. A personalidade
fendida com a droga passa a desenvolver
um modo diferenciado de ser. Novos
objetos são apreendidos por esse sujeito
em seu território existencial, com uma diferença:
entradas existenciais adquirem um caráter
desigual, algumas se tornam mais importantes
que as outras. Esse processo imprime,
em uma primeira visão, uma desterritorialização
dos modos de subjetivação existentes,
mas acaba por construir uma reterritorialização
conservadora no território existencial.
O usuário do ecstasy, por exemplo,
busca eternamente recuperar o shoom (sensação
de bem estar) da fase inicial de uso
da droga. Sem sucesso, desenvolve algumas
patologias como a depressão crônica, dependência
psíquica e uma dificuldade em lidar
com o mundo real, que nem sempre é tão
divertido como uma pista de dança de uma
rave.
A crescente produção de materiais informáticos,
de linguagens, de produtos informacionais,
de novos dispositivos eletrônicos
– como as copiadoras com dados armazenados
em chips ou as câmeras de vídeo produzidos
com periféricos de computadores – encurta
as distâncias espaço-temporais e alarga
nossas representações. O corpo desdobrase
em características hipertextuais e rizomáticas,
extrapola o universo traduzido em
bits para regalar-se em experiêncas estéticas,
sensoriais, cognitivas e conceituais que
o desterritorializam numa escala até então
desconhecida.
Maffesoli (1996) afirma que, na perspectiva
de uma estética ampliada, há uma erótica
dos corpos, ou seja, eles funcionam como fatores
de união e de criação de comunidades.
Se podemos afirmar que estamos frente ao
estabelecimento de alguns pressupostos que
apontam para a constituição das comunidades
virtuais, como então desprezar uma aproximação
entre os cibercorpos?
Concordar com as afirmativas que declinam
um vasto repertório sobre o caráter narcotizante
que as experiências mediadas pela
tecnologia apresentam, significa desprezar
que há um entrelaçamento ou uma apropriação
da forma técnica pelo laço social. E
a essa apropriação os cibercorpos não escapam.
Os planos da alteridade não serão desprezados
pelos corpos construídos ou estendidos
pelas tecnologias. Quando em um chat
−− fóruns on line que funcionam em tempo
real −−, o sujeito muda seus componentes
identitários, ele produz um corpo ilusório,
não somente para si mesmo, mas para estabelecer
um contato com o outro. Sobre o
motivo dessa escolha que permite jogar com
a aparência poderíamos escrever um sem núwww.
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8 Carlos Camargos Mendonça
mero de artigos, o que não é nosso objetivo.
O que queremos dizer é que nesse modo de
tele-presença, em que a voz é ainda muito
pouco usada, a ilusão do corpo, nos termos
de Maffesoli, constitui um forte elemento
para a sedimentação de relações.
Partindo das conversas on line e chegando
até as experiências de Kac e do superexcitado
Stelarc, que interferem sobre o próprio
corpo para criarem suas performances artísticas,
ainda aí não podemos dizer de uma
atitude solitária, individualista. A opção da
intervenção sobre o corpo é individual, não
resta dúvida, mas a atitude aí produzida tem
efeitos coletivos. Maffesoli, a partir de Nietzsche,
ao comentar a transposição da arte
para o cotidiano, afirma que o homem “é produto
da estética, ele é participante de um ‘genius’
coletivo que o ultrapassa de longe. É
tomado pelas formas, como um banho matricial
que o modela e faz dele o que ele é.”
(MAFFESOLI.1996:150)
É importante relembrar aqui que Maffesoli
confere ao termo estética um sentido
amplo, um sentido de agregação que constitui
as relações sociais a maneira de uma
pulsão. A própria atitude, seja ela produzida
no ciberespaço ou sobre o corpo físico, não
é o sintoma de uma subjetividade narcísica
e solipsista, mas, paradoxalmente, signo
de um narcisismo de grupo, nos termos de
Maffesoli. Parafraseando o autor, como
nos rituais de algumas sociedades da Idade
Média, o sujeito está oferecendo sua carne
em partilha, não para uma colonização, mas
para uma exaltação coletiva do corpo, seja
na sua hibridização com as máquinas, seja
quando afetado à distância.
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produtoras de corpos
Carlos Camargos Mendonça_
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entre o humano e a máquina através das
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dispositivos e da lógica hipertextual que
acabou por alcançar o próprio corpo, que é
submetido a todo tipo de operações: modelizado
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artificiais, vasculhado em seu interior - mas
sem ser penetrado - pelas nanotecnologias
ou pelos programas de realidade virtual,
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Clínica e Psicossociologia, realizado no período
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um objeto de projeto - segundo a expressão
do artista australiano Stelarc.
O que pretendemos demonstrar ao longo
deste artigo é que, mesmo aí, quando falamos
do corpo e da sua hibridação ou interação
com a máquina, encontramos o vínculo
entre o socius e a subjetividade2, agora
sob a forma de um corpo partilhado a distância.
Desta maneira, consideramos que
as metamorfoses sofridas pelo corpo, seja
através do objeto artístico ou ainda pautadas
nas experiências tecnológicas, estão -
antes de mais nada - imbricadas em estratos
sócio-culturais, códigos culturais e fluxos
de espaço-tempo que além de modelizar
o corpo metamodelizam a subjetividade contemporânea.
A aproximação entre o corpo físico natural
e a máquina tecnológica está sendo elaborada
nas mais variadas instâncias de pesquisas
e estudos. O que nos chama a atenção é
não só o desenvolvimento de algoritmos que
2 Por subjetividade entendemos - com Félix Guattari
- o “conjunto de condições que torna possível que
instâncias individuantes e/ou coletivas estejam em
posição de emergir como território existencial autoreferencial
em adjacência ou em relação com uma alteridade
ela mesma subjetiva”. (Cf. GUATTARI. Caosmose,
p.19).
2 Carlos Camargos Mendonça
possibilitam a modelagem de diferentes tipos
de sólidos, mas também as criações conceituais
tais como aquelas da teoria da complexidade
ou surgidas das experimentações
estéticas que promovem a inter-relação entre
arte, corpo e tecnologia.
Peter Pál Pelbart, no início de sua obra A
vertigem por um fio, atenta para o fato de que
a fabricação social e histórica da subjetividade
não é um dado novo. Para ressaltar tal
constatação, o autor remonta à Nietzsche e
os métodos evocados por estes para dizer da
domesticação do corpo.
Recentemente se mostrou que a docilização
de um corpo pode recorrer a tecnologias
mais suaves, dispensando até
mesmo a violência direta, física... Novas
maneiras de moldar o corpo, modelá-lo,
marcá-lo, excitá-lo, erotizá-lo, obrigá-lo
a emitir signos etc. Não cabe aqui aprofundar
o sentido desta domesticação, da
qual, pelo visto, ainda nada vimos. Basta
lembrar que daí se depreende mais e
mais como um truísmo: se a forma do
homem, a forma do homem é uma modelagem
histórica complexa e mutante, não
há por que desesperar-se com a exclamação
do filósofo: ’estamos cansados do
homem’. O que o enfastia é o fato de que
o homem se tornou um verme medíocre e
insosso, e que esse apequenamento nivelado
se tornou meta de civilização...
É preciso seguir Nietzsche até o fim,
mesmo e sobretudo quando seus textos
sugerem que o homem aprisionou a vida,
e que é preciso livrar-se do homem para
libertar a vida...
Mas como liberar as forças aprisionadas
sob a carcaça atual do homem? É
uma guerra total, cruel, brutal e sofisticada
ao mesmo tempo, não menos violenta
talvez, do que aquela que deu origem
a essa forma que hoje se quer remover,
e cujo campo de batalha não é
outro se não o próprio corpo do homem,
desde seus genes até os seus gestos,
sua percepção, seus afectos. Nada
está decidido, pois o homem continua
sendo, conforme a definição de Nietzsche,
’o ainda não domado, o eternamente
futuro’. O retrato que Nietzsche nos lega
é também um chamamento: o homem, um
grande experimentador de se mesmo."
(PELBART.2001: 13)
Segundo Edgar Morin (1993), todo organismo
vivo é uma máquina que necessita,
para manter-se vivo, do trinômio matéria/
energia/informação exterior, sem desconsiderar
a utilização de seu patrimônio genético.
Computamos as informações exteriores
para garantirmos nossa sobrevivência.
Toda estrutura do mundo, seja ela uma célula,
um grande organismo vegetal ou animal
funciona como uma máquina computante.
Criamos autonomias e depedências
para nos mantermos vivos. Somos “seresmáquinas”.
O paradigma da “auto-organização” defendido
por Heinz von Foerster e por Henri
Atlan está presente no pensamento de Edgar
Morin. Para von Foerster, um dos fundadores
da cibernética, a criação da máquina artificial,
diferentemente da máquina natural,
não a capacita para auto-organizar seus programas
à medida em que esses são operados.
Máquinas artificiais dependem de constante
programação exterior. Essas máquinas não
são capazes de se auto-gerir ou mesmo de
efetuar algum tipo de pensamento. A imprewww.
bocc.ubi.pt
Subjetividade e tecnologia 3
visibilidade do pensamento humano não está
presente nos programas de computadores, o
que os impede de imitar a inteligência humana.
O armazenamento de dados matemáticos
e linguagens computacionais não configura
memória. O computador não tem memória,
tem apenas armazenamento de dados,
ele nunca descreverá suas memórias, conclui
o autor.
É através de noções como a de “seresmáquinas”,
de corpos híbridos, metamodelizados
por múltiplos agenciamentos maquínicos3,
habitantes do encontro virtual das redes,
que buscamos perceber uma possível
composição que organiza os novos modos de
subjetivação e de sociabilidade.
O surgimento das redes telemáticas e da
cultura digital, a criação do ciberespaço, a
proliferação das comunidades virtuais, as
mudanças no mundo do trabalho proporcionadas
pela inserção dos computadores nos
modos de produção e comercialização de
bens e produtos, as próteses eletrônicas utilizadas
na medicina ou mesmo as combinações
da engenharia genética são elementos
que modificam o nosso corpo. Os novos aparelhos
para exames médicos possibilitam ver
o interior do corpo sem cortá-lo; a ultrassonografia,
por exemplo, detalha formato, tamanho
e textura dos órgãos.
Pesquisas como a da Universidade de
Washington, nos Estados Unidos, são de-
3 Guattari denomina maquínico o estrato de sentido
formado por matérias expressivas heterogêneas,
não-linguisticamente formadas, mas ainda assim de
natureza semiótica. Substâncias de expressão heterogêneas
como as codificações biológicas ou as formas
de organização própria ao socius – como aquelas derivadas
de instituições como a família ou a escola –
atravessam, transversalmente, os domínios de sentido
propriamente linguísticos. A esse respeito, cf. Caosmose,
p.35-38.
senvolvidas, desde o início de 1998, com
o objetivo de criar procedimentos cirúrgicos
através de realidade virtual. A universidade
de Simom Fraser, em Burbanaby, no
Canadá, também pesquisa cirurgias em ambientes
virtuais. Na California, Estados Unidos,
a Computer Motion, empresa que desenvolve
braços robóticos, desenvolveu o robô
Zeus. Com três braços, ele auxilia e melhora
a operação médica. Dados como estes indicam
que o corpo humano está passando por
transformações, seja na sua relação com as
máquinas, seja na sua inter-relação com o
outro mediada pelas tecnologias. Para André
Lemos
Vivemos hoje, sem dúvida, um processo
de conversão do mundo em dados binários.
A artificialização avança com o digital,
atravessando todos os aspectos da
cultura comtemporânea. É neste contexto
que pode surgir o discurso sobre
os cyborgs. Embora seja fruto de processos
ancestrais da simbiose homemtécnica,
o cyborg só pode existir num
mundo traduzido em bits. Não é a toa que
o corpo passa a ser uma superfície de escrita
de vários ‘textos’; um grande hipertexto,
desaparecendo enquanto corpo natural
(processo de hiper-exteriorização
com prótese, nanotecnologia, vacinas; e
hiper-interiorização - construção de subjetividade).
(LEMOS. 1998: 54)
Tal como escreve André Lemos, os
processos de hiper-exteriorização e hiperinteriorização,
por sua vez, adquirem força
na aproximação entre o corpo físico natural
e as máquinas tecnológicas. A hiperexteriorização
ganha um relevo considerável
na modelização informática do corpo.
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4 Carlos Camargos Mendonça
As tecnologias não inauguram simplesmente
um corpo imaginário, desejado, elas nos proporcionam
um corpo até então não imaginado:
o cibercorpo.
Para o artista australiano Stelarc, estamos
estendendo as capacidades do corpo com o
uso das tecnologias. Em suas performances,
o artista utiliza a combinação de próteses e
de estímulos nervosos a partir de corrente
elétrica sobre seu corpo, buscando uma imbricação
entre movimentos voluntários, involuntários
e programados. “O corpo não
como sujeito, mas como um objeto – não um
objeto de desejo, mas um objeto de projeto.”
(STELARC.1997:55)
A biotecnologia está nos dando novas dimensões
da interioridade e da exterioridade
do corpo físico natural. O corpo adquire uma
nova espessura, no ciberespaço ele se torna
híbrido, misturando os componentes do humano
e da máquina. Paul Virilio dedica um
capítulo de seu livro A Arte do Motor à discussão
da relação entre os novos dispositivos
tecnológicos e o corpo físico natural. Partindo
do super-homem nietzscheano e chegando
até o superexcitado Stelarc, Virilio
analisa o que ele denomina “intra-estrutura”,
istó é, a inseminação do corpo físico humano
pelas biotecnologias, possibilitada pelo desenvolvimento
da nanotecnologia.
Paul Virilio comenta que a nanotecnologia
está propiciando uma colonização do corpo,
produzindo até mesmo uma invasão microfísica
do corpo e surgindo assim como último
recurso, ou recurso de ponta, para domesticar
o homem. Segundo ele, houve uma modificação
no espaço ocupado pelas tecnologias
de ponta, que deixou de ser o universo
sem fronteiras do ambiente planetário para
ocupar nossos órgãos. “A perda, ou mais
exatamente, o declínio exclusivo da ausência
de intervalo das teletecnologias do tempo
real resulta inevitavelmente na intrusão intraorgânica
da técnica e de suas micromáquinas
no seio do que vive.”(VIRILIO.1996:92)
O “corpo-próprio” sofre o ataque da biotecnologia
– que agora é capaz de povoar
as entranhas do sujeito. As novas técnicas
suplantam revoluções como a industrial e a
provocada pela transmissão imediata de informação
pelos meios de comunicação de
massa. A revolução de agora é a dos transplantes,
que têm em si o poder de povoar o
corpo vital com técnicas estimulantes, afirma
Virilio.
Se durante toda a sua história a técnica
se desenvolveu no sentido do corpo geofísico,
agora ela caminha na direção do corpo
físico, excitando-o e estimulando-o ao máximo
como forma de compensação diante da
inércia a que está condenado pelas modernas
formas urbanas de vida:
Não se pode descrever melhor o estado
dos lugares de nossa pós-modernidade
onde os superexcitantes são prolongamentos
de uma sedentaridade metropolitana
em vias de generalização acelerada,
notadamente graças a essa teleação
que substitui doravante a ação imediata...
A inércia, a passividade do homem
pós-moderno exige um acréscimo
de excitação, não somente através das
práticas esportivas abertamente desnaturalizadas,
mas também no caso de atividades
cotidianas em que a emancipação
corporal devida às técnicas da teleação
em tempo real liquida as necessidades
tanto de vigor quanto de esforço
muscular. (VIRILIO.1996:93)
As mudanças que hoje atingem o corpo
vão muito para além das transformações prowww.
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Subjetividade e tecnologia 5
porcionadas pela cirurgia plástica. Um novo
projeto de corpo redimensiona o velho modelo
de carne e osso para colocá-lo mais próximo
da hibridação homem-máquina. Um
novo tecido cobre a pele, desnudada e penetrada
por aparelhos bio-tecnológicos: “O
corpo hoje pode ser construído, apagado,
restaurado. Já não há mais verdade no
corpo”, afirma o artista multimídia e professor
da The School of the Art Institute of
Chicago (EUA) Eduardo Kac, em entrevistas
ao Jornal Folha de São Paulo na abertura
da exposição “Arte Suporte Computador”, na
Casa das Rosas, em São Paulo, no dia 11 de
fevereiro de 1997.
Às 21h30 daquele dia, em uma maca, Kac
tomou uma anestesia local para fazer uma
incisão com bisturi no tornozelo esquerdo e
implantou ali um chip como parte da obra
Time Capsule. O chip, que ficará no corpo do
artista para sempre, tem o tamanho de 15mm
x 2 mm e trazia um número aleatório que poderia
ser decodificado: 026109532. A operação
foi transmitida ao vivo pela TV Cultura
de São Paulo e pela internet. Para o artista, o
implante fazia parte de um trabalho de arte e
não foi apenas uma cirurgia.
Em outros trabalhos seus, como o Ornitorrinco,
por exemplo, um robô pode ser operado
a distância e em tempo real via internet.
Desse modo, o espectador pode explorar, à
distância, o espaço no qual o robô está.
Os elementos imateriais são mais adequados
para o meu trabalho: luz, lugares
remotos e diferentes zonas temporais,
conversações orais, videoconferências,
navegação robótica, multiplicidade
dos espaços virtuais, sincronicidade, interação
humano/máquina, interação animal
e planta, interação humana e animal
mediada por telerrobôs, e transmissão,
recepção e troca de informações digitais.
(KAC.1997:322)
Por meio dessa estranha interação entre as
máquinas e os seres vivos (animais e humanos)
as obras de Kac colocam em coexistência
elementos do espaço virtual e do real
na busca de expandir o corpo físico natural
através do espaço eletrônico e das diferentes
formas de tele-ação. Um corpo feito feito
de perceptos e afetos mutantes4. A título de
ilustração sobre os perceptos e afetos mutantes,
desencadeados pelas hibridações entre
os corpos e as máquinas, podemos nos lembrar
do filme Matrix. Nessa obra, a vida é
uma ilusão produzida por dispositivos tecnológicos
operados por um grupo de inteligências
artificiais que se rebelou contra os humanos.
No ciberespaço foi criada uma reprodução
do mundo físico natural e os humanos
são usados, sem saber, como fonte de energia
para as máquinas. Aqueles que conseguiram
se libertar - ou se desconectar, como dizem
eles - usam a grande rede para fazer a passagem
de seu mundo físico para o mundo possível
(segundo a caracterização de Eco para
a ficção científica5) representado pelas redes.
Quando se servem desse processo, uma to-
4 Segundo Deleuze e Guattari, perceptos e afetos
são seres de sensação que transbordam o vivido e a
própria percepção, e se conservam nos diferentes materiais
da arte. Enquanto o percepto é aquilo que nos
arranca das percepções vividas, o afeto é aquilo que
nos revela os devires não-humanos do homem. Cf.
Deleuze, Guattari. O que é filosofia? p. 216-217
5 Para Eco, a metatopia ou metacronia é denominação
mais apropriada para a ficção científica. Esse
tipo de narração remete, imediatamente, a uma visão
de tempo futuro: "Metatopia ou Metacronia: as épocas
retratadas nas obras representam um tempo futuro
que, por mais diverso que seja do real, é possível
e verossímil porque as transformações a que foi
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6 Carlos Camargos Mendonça
mada cheia de microsoftwares implantada na
nuca permite a conexão do corpo com a rede
informática chamada Matrix. Nessa rede, o
corpo pode adquirir qualquer forma ou função,
ser construído ou reconstruído quantas
vezes for necessário, desde que não sofra nenhuma
ação letal. O corpo de quem não se
libertou da grande rede está preso em cápsulas,
apenas a mente trabalha estimulada pela
ilusão de que está tendo uma vida comum.
Identificamos aí um tipo de Corpo sem Órgãos
(CsO).
Deleuze e Guattari definem o Corpo sem
Órgãos - CsO, do seguinte modo:
Um CsO é feito de tal maneira que ele só
pode ser ocupado, povoado por intensidades.
Somente as intensidades passam
e circulam. Mas o CsO não é uma cena,
um lugar, nem mesmo um suporte onde
aconteceria algo. Nada a ver com um
fantasma, nada a interpretar. O CsO faz
passar intensidades, ele as produz e as
distribui num spatium ele mesmo intensivo,
não extenso. Ele não é espaço e nem
está no espaço, é matéria que ocupará o
espaço em tal ou qual grau – grau que
corresponde às intensidades produzidas.
Ele é a matéria intensa e não formada,
não estratificada, a matriz intensiva, a
intensidade = 0, mas nada há de negativo
neste zero, não existem intensidades
negativas nem contrárias. (DELEUZE e
GUATTARI.1996:13)
O CsO é uma experimentação inevitável,
que põe em contato o corpus e o socius concedendo
aos órgãos uma outra função, modificando
sua função natural, permitindo ver
submetido nada mais fazem do que complementar as
linhas de tendência do mundo real." (ECO.1989:168)
com a pele ou sentir com os olhos, tal como
fizeram em diferentes ocasiões, em suas experimentações
literárias, criadores como Artaud,
William Burroughs, Carlos Castañeda
e Henry Miller. Para Deleuze,
do mesmo modo como o mecânico supõe
uma máquina social, o próprio organismo
supõe um corpo sem órgãos,
definido por suas linhas, seus eixos e
seus gradientes, todo um funcionamento
maquínico distinto das funções orgânicas
sociais tanto quanto das relações mecânicas.
(DELEUZE. 1998.p.122)
Atualmente, modificações profundas
emergem dos novos modos de relação
humana, não só com referência aos corpos
que habitam o ciberespaço, mas também no
que diz respeito ao cotidiano, nas interações
simples do dia a dia. As ingerências das
mutações tecno-científicas nas sociedades
complexas desse fim de século reconfiguram
a ecologia social. Guattari afirma que a
ecologia do virtual se faz tão necessária
ao mundo de hoje quanto a ecologia do
mundo natural e humano. Segundo ele, as
artes nos servem como ricos instrumentos
e como paradigmas de referência para
as novas práticas sociais. A ecologia do
virtual, aliada à ecologia do mundo natural e
humano, produzirá a ecologia geral ou, nos
termos do autor, a ecosofia, que
agirá como ciência do ecossistema, como
objeto de regeneração política mas também
como engajamento ético, estético,
analítico, na iminência de criar novos
sistemas de valorização, um novo gosto
pela vida, uma nova suavidade entre os
sexos, as faixas etárias, as etnias, as raças...
(GUATTARI.1993a:116)
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Subjetividade e tecnologia 7
Quando levamos em conta os perceptos e
afetos mutantes, produzidos na conformação
do cibercorpo - com suas infinitas interfaces
que se desdobram em interioridade e
exterioridade - percebemos os agenciamentos
hipercomplexos que compõem o corpo
meio-objeto meio-sujeito a que estamos nos
referindo. Nesse corpo, modificado pela tecnologia
não só no seu aspecto físico, mas
também na sua estrutura psico-social, os velhos
órgãos se expandem e se retraem para
produzirem novos movimentos e estímulos
que configuram uma subjetividade que aproxima
o humano e as máquinas.
Deleuze e Guattari nos apresentam uma
pequena procissão de corpos: o corpo hipocondríaco,
o corpo paranóico, o corpo esquizo,
o corpo drogado e o corpo masoquista.
Tomemos como referência, nesse
momento, o corpo drogado. A personalidade
fendida com a droga passa a desenvolver
um modo diferenciado de ser. Novos
objetos são apreendidos por esse sujeito
em seu território existencial, com uma diferença:
entradas existenciais adquirem um caráter
desigual, algumas se tornam mais importantes
que as outras. Esse processo imprime,
em uma primeira visão, uma desterritorialização
dos modos de subjetivação existentes,
mas acaba por construir uma reterritorialização
conservadora no território existencial.
O usuário do ecstasy, por exemplo,
busca eternamente recuperar o shoom (sensação
de bem estar) da fase inicial de uso
da droga. Sem sucesso, desenvolve algumas
patologias como a depressão crônica, dependência
psíquica e uma dificuldade em lidar
com o mundo real, que nem sempre é tão
divertido como uma pista de dança de uma
rave.
A crescente produção de materiais informáticos,
de linguagens, de produtos informacionais,
de novos dispositivos eletrônicos
– como as copiadoras com dados armazenados
em chips ou as câmeras de vídeo produzidos
com periféricos de computadores – encurta
as distâncias espaço-temporais e alarga
nossas representações. O corpo desdobrase
em características hipertextuais e rizomáticas,
extrapola o universo traduzido em
bits para regalar-se em experiêncas estéticas,
sensoriais, cognitivas e conceituais que
o desterritorializam numa escala até então
desconhecida.
Maffesoli (1996) afirma que, na perspectiva
de uma estética ampliada, há uma erótica
dos corpos, ou seja, eles funcionam como fatores
de união e de criação de comunidades.
Se podemos afirmar que estamos frente ao
estabelecimento de alguns pressupostos que
apontam para a constituição das comunidades
virtuais, como então desprezar uma aproximação
entre os cibercorpos?
Concordar com as afirmativas que declinam
um vasto repertório sobre o caráter narcotizante
que as experiências mediadas pela
tecnologia apresentam, significa desprezar
que há um entrelaçamento ou uma apropriação
da forma técnica pelo laço social. E
a essa apropriação os cibercorpos não escapam.
Os planos da alteridade não serão desprezados
pelos corpos construídos ou estendidos
pelas tecnologias. Quando em um chat
−− fóruns on line que funcionam em tempo
real −−, o sujeito muda seus componentes
identitários, ele produz um corpo ilusório,
não somente para si mesmo, mas para estabelecer
um contato com o outro. Sobre o
motivo dessa escolha que permite jogar com
a aparência poderíamos escrever um sem núwww.
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8 Carlos Camargos Mendonça
mero de artigos, o que não é nosso objetivo.
O que queremos dizer é que nesse modo de
tele-presença, em que a voz é ainda muito
pouco usada, a ilusão do corpo, nos termos
de Maffesoli, constitui um forte elemento
para a sedimentação de relações.
Partindo das conversas on line e chegando
até as experiências de Kac e do superexcitado
Stelarc, que interferem sobre o próprio
corpo para criarem suas performances artísticas,
ainda aí não podemos dizer de uma
atitude solitária, individualista. A opção da
intervenção sobre o corpo é individual, não
resta dúvida, mas a atitude aí produzida tem
efeitos coletivos. Maffesoli, a partir de Nietzsche,
ao comentar a transposição da arte
para o cotidiano, afirma que o homem “é produto
da estética, ele é participante de um ‘genius’
coletivo que o ultrapassa de longe. É
tomado pelas formas, como um banho matricial
que o modela e faz dele o que ele é.”
(MAFFESOLI.1996:150)
É importante relembrar aqui que Maffesoli
confere ao termo estética um sentido
amplo, um sentido de agregação que constitui
as relações sociais a maneira de uma
pulsão. A própria atitude, seja ela produzida
no ciberespaço ou sobre o corpo físico, não
é o sintoma de uma subjetividade narcísica
e solipsista, mas, paradoxalmente, signo
de um narcisismo de grupo, nos termos de
Maffesoli. Parafraseando o autor, como
nos rituais de algumas sociedades da Idade
Média, o sujeito está oferecendo sua carne
em partilha, não para uma colonização, mas
para uma exaltação coletiva do corpo, seja
na sua hibridização com as máquinas, seja
quando afetado à distância.
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VIRILIO, Paul. A Máquina de Visão. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1994.
Perguntas Frequentes Sobres Tecnologia de Maquina Virtual
Perguntas Freqüentes sobre Tecnologia de Máquina Virtual
Publicado em: 15/03/2006
________________________________________
Mostrar todos as Respostas
P.
O que é a tecnologia de máquina virtual?
R. A tecnologia de máquina virtual permite que sistemas operacionais múltiplos sejam executados ao mesmo tempo em um único computador. Ela se aplica tanto ao hardware do servidor quanto ao hardware cliente. O Microsoft Virtual PC e o Microsoft Virtual Server 2005 permitem que um ou mais sistemas operacionais baseados no x86 sejam executados no mesmo sistema do computador. O Virtual PC for Mac permite que um ou mais sistemas operacionais diferentes sejam executados no sistema operacional do Macintosh para que os usuários possam executar um sistema operacional Microsoft Windows e uma aplicação baseada no Windows em um computador Macintosh.
P.
Para que serve a tecnologia de máquina virtual?
R. A tecnologia de máquina virtual serve para uma variedade de propósitos. Ela permite a consolidação do hardware, um sistema de recuperação simplificada, e a re-hospedagem de aplicações anteriores já que sistemas operacionais múltiplos podem ser executados em um único computador. Uma aplicação importante para a tecnologia de máquina virtual é a integração entre plataformas. Outras aplicações importantes são:
• Consolidação do servidor.Ser diversos computadores de servidor executam aplicações que consomem apenas uma fração dos recursos disponíveis, é possível usar a tecnologia da máquina virtual para permitir que as aplicações sejam executadas lado a lado em um único computador de servidor, mesmo que elas exijam versões diferentes do sistema operacional ou do middleware.
• Automação e consolidação dos ambientes de teste e desenvolvimento.Cada máquinas virtual funciona como um ambiente separado. Desta forma, os riscos são reduzidos e os desenvolvedores podem recriar rapidamente diferentes configurações de sistemas operacionais ou comparar versões de aplicações projetadas para sistemas operacionais diferentes. Além disso, um desenvolvedor pode ainda testar versões de uma aplicação nos seus primeiros estágios de desenvolvimento em uma máquina virtual sem desestabilizar o sistema para outros usuários.
• Re-hospedagem de versões anteriores de aplicações.É possível executar versões anteriores de sistemas operacionais e aplicações em um novo hardware junto com versões mais recentes destes sistemas operacionais e aplicações.
• Simplificação dos ambientes de recuperação do sistema.É possível usar as soluções de Virtualização como parte de um plano de recuperação de sistemas que exija flexibilidade e portabilidade entre plataformas de hardware.
• Demonstrações de software.Com a tecnologia de máquina virtual, é possível recriar rapidamente um novo ambiente de sistema operacional ou configuração do sistema.
P.
O que é o Virtual Server 2005?
R. O Virtual Server 2005 é a tecnologia de Virtualização mais eficaz em termos de custo, projetada para o Windows Server System. Como parte fundamental de qualquer estratégia de consolidação do servidor, o Virtual Server aumenta a utilização do hardware e permite que as organizações configurem e implantem rapidamente novos servidores. O lançamento atual é o Virtual Server 2005 R2, que possui recursos importantes que suportam a alta disponibilidade da máquina virtual, a hospedagem de x64, e o desempenho aprimorado.
P.
Quais as diferenças entre o Virtual PC e o Virtual Server?
R. O Microsoft Virtual PC 2004 é uma solução de máquina virtual para sistemas operacionais em estações de trabalho. O Microsoft Virtual Server 2005 é uma solução para sistemas operacionais em servidores. Apesar do Virtual PC e Virtual Server possuírem muitos recursos em comum, eles foram projetados para propósitos diferentes e por isso alguns de seus recursos são bastante diferentes. Para uma explicação mais detalhada das diferenças entre o Virtual PC e o Virtual Server e uma discussão acerca dos diversos cenários para um ou outro, faça o download do Informe Oficial sobre Virtualização na página de Downloads de Documentos sobre Licenciamento por Volume.
P.
O que é preciso saber sobre o licenciamento em um ambiente de máquina virtual?
R. Para informações sobre o licenciamento em um ambiente de máquina virtual, faça o download do documento sobre licenciamento Licenciando o Microsoft Windows Server e outros Softwares de Servidores Microsoft para o Microsoft Virtual Server 2005 ou Outros Ambientes de Máquina Virtual(arquivo Microsoft Word, 145 KB).
P.
Posso transferir uma licença do Microsoft Windows Server de um OEM (original equipment manufacturer - fabricante de equipamentos originais) para uma máquina virtual em outra máquina virtual? Como esta situação é tratada?
R. Você não pode transferir licenças de servidor de OEMs da máquina original para uma máquina diferente. Qualquer licença do Microsoft Windows Server que for pré-instalada em um novo computador por um OEM ou que tenha sido adquirida através de qualquer programa de Licenciamento por Volume da Microsoft está vinculada ao computador no qual o software licenciado foi instalado. Isto se aplica à cópia inicial que é instalada no computador e a toda e qualquer cópia licenciada para ser executada com um software de máquina virtual.
No entanto, se você tiver inscrito esta licença pelo contrato de Licenciamento por Volume da Microsoft e tiver adquirido o Software Assurance para esta licença pré-instalada dentro de 90 dias após a compra original, você terá alguns benefícios, incluindo uma nova designação para licença associada com o programa de Licença por Volume. Você poderá, então, transferir aquela licença de um computador para outro, incluindo para uma máquina virtual.
P.
Quantas licenças do Windows Server são necessárias para minhas máquinas virtuais?
R. Cada cópia instalada de um sistema operacional de servidor do Windows deve ser licenciada separadamente. Por exemplo, se você estiver instalando quatro máquinas virtuais no Virtual Server 2005 para a execução de uma instância do Microsoft Windows 2000 Server e três instâncias do Microsoft Windows NT Server 4.0 ao mesmo tempo, então você precisará de uma licença do Windows 2000 Server e três licenças do Windows NT Server 4.0. Estas licenças são adicionais à licença de hospedagem do Microsoft Windows Server 2003 executado no Virtual Server 2005. Você deve ter ou adquirir licenças do Windows Server para o número máximo de cópias de software que serão instaladas ou executadas.
Com o sistema operacional do Microsoft Windows Server 2003, Enterprise Edition, você terá direitos sobre as quatro máquinas virtuais sob uma única licença física. Neste caso, se você estiver instalando quatro máquinas virtuais no Virtual Server 2005 para executaram ao mesmo tempo uma instâncias do Windows 2000 Server e três instâncias do Windows NT Server 4.0, você precisará adquirir apenas uma licença do Windows Server 2003, Enterprise Edition, como host.
P.
Quais são os requisitos da CAL (Client Access License - Licença de Acesso do Cliente) para máquinas virtuais?
R. Uma CAL do Windows Server 2003 CAL é exigida para cada usuário ou dispositivo que acesse a máquina virtual enquanto ela é executada no sistema operacional do host (Windows Server 2003).
P.
A execução do Windows NT em uma máquina virtual significa que a Microsoft está ampliando o suporte para o produto?
R. Não. Você pode se beneficiar da transferência de aplicações de um hardware físico para máquinas virtuais. No entanto, a execução destas aplicações em um ambiente virtual não amplia seus ciclos de vida de suporte. Para mais informações sobre a duração dos ciclos de vida de suporte, visite a página do Ciclo de Vida do Suporte Microsoft.
P.
Quantas máquinas Virtuais podem ser executadas por processador?
R. O número de máquinas virtuais que pode ser executado por host depende de diversos aspectos, incluindo memória física, processador, e carga de trabalho em execução no guest. Com o Virtual Server 2005, você pode definir a quantidade de memória disponível para uma máquina virtual. A alocação da memória pode ser alterada para refletir as necessidades da máquina virtual. Para mais informações, leia o Informe Oficial da Visão Geral Técnica do Virtual Server 2005.
P.
A Microsoft oferece uma ferramenta de conversão de máquinas física – para – máquina virtual (P2V)?
R. Sim. Você pode fazer o download da ferramenta na página Microsoft Virtual Server 2005 Migration Toolkit.
P.
Posso usar a tecnologia de máquinas virtual junto com uma SAN (storage area network - rede de área de armazenamento)?
R. O Virtual Hard Disks (VHD) pode ser armazenado em uma SAN. Um sistema operacional do host visualiza um volume SAN como um volume local. Portanto, não é necessária uma configuração específica para utilizar o Virtual Server 2005 com uma SAN. Para mais informações, faça uma busca por "SAN" no Guia do Administrador do Virtual Server. O Virtual Server 2005 R2 agora pode fazer o cluster de hosts do Virtual Server baseado no armazenamento compartilhado, o que inclui arquiteturas de SAN.
P.
Se o Windows Server 2003, Enterprise Edition, for usado como o ambiente host, terei direito a quatro licenças virtuais? E se o host for o VMWare?
R. O licenciamento não depende da tecnologia de virtualização que está sendo usada. Com uma licença para o Windows Server 2003 R2, Enterprise Edition, é possível executar uma instâncias do software em um ambiente de sistema operacional físico e até quatro instâncias em ambientes de sistema operacional virtual. Com o VMWare GSX Server, significa que você pode executar uma instância física mais quatro instâncias virtuais. Com o VMWare ESX Server, significa que você pode executar quatro instâncias virtuais porque não há necessidade para uma instância física.
P.
Uma organização pode transferir licenças já existentes para o Windows Server 2003, Enterprise Edition, para desfrutar dos mesmos direitos para ambientes virtuais adicionais? Por exemplo, é possível transferir cinco licenças existentes para o Windows Server 2003, Enterprise Edition, para garantir o direito de execução de 20 ambientes de sistemas operacionais virtuais?
R. Se a organização tiver o Software Assurance, ela pode fazer a atualização de suas licenças do Windows Server 2003, Enterprise Edition, para licenças do Windows Server 2003 R2, Enterprise Edition. Se ela tiver Software Assurance, ela pode adquirir “step-ups”, permitindo que elas transfiram suas licenças do Windows Server 2003, Standard Edition, para o Windows Server 2003, Enterprise Edition (e depois para o Windows Server 2003 R2, Enterprise Edition). As Licenças por Volume podem ser designadas novamente a cada 90 dias, de um servidor físico para outro. As licenças de OEMs não podem ser designadas novamente.
P.
Com o Microsoft SQL Server em um cenário de failover ativo ou passive, uma organização possui duas máquinas virtuais, com um processador virtual em cada. Apenas uma máquina virtual está em execução ou ativa (um processador); a segunda máquina virtual está desativada ou inativa (um processador) e é usada apenas como backup. A organização deve adquirir apenas uma licença de produto do SQL e usar os direitos de ativo ou passivo para a segunda instalação? Esta regra pode ser aplicada a um ambiente virtual?
R. Uma máquina virtual inativa não precisa de uma licença separada para nenhum dos produtos de servidor Microsoft. Se uma organização cria uma máquina virtual e esta máquina não está em execução, então a organização não precisa de uma licença separada para o software naquela máquina virtual. Com o aprimoramento da “licença por instância executada", uma licença permite que a organização crie qualquer número de instâncias ou de backups de software. Por exemplo, se a organização tiver uma licença para o Windows Server, então ela pode criar qualquer número de instâncias ou cópias de backup do Windows Server.
O SQL Server, especificamente, tem a exceção do "failover passivo"; uma organização pode executar uma segunda instância do SQL Server. No entanto, esta instância deve ser passiva e não ativa. A organização pode executar aquela instância em um máquina virtual no mesmo servidor ou em uma máquina virtual em outro servidor. Por exemplo, se a organização tiver uma máquina virtual executando o SQL Server no Servidor A, ela pode criar uma instância passiva do SQL Server em uma máquina virtual no Servidor B. Tanto a máquina virtual no Servidor A quanto máquina virtual no Servidor B estão em execução. No entanto, a instância do SQL Server no Servidor B deve ser passiva. ("Passiva", no sentido de "failover passivo", isto é, uma instância em execução que não está trabalhando).
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R.
Publicado em: 15/03/2006
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P.
O que é a tecnologia de máquina virtual?
R. A tecnologia de máquina virtual permite que sistemas operacionais múltiplos sejam executados ao mesmo tempo em um único computador. Ela se aplica tanto ao hardware do servidor quanto ao hardware cliente. O Microsoft Virtual PC e o Microsoft Virtual Server 2005 permitem que um ou mais sistemas operacionais baseados no x86 sejam executados no mesmo sistema do computador. O Virtual PC for Mac permite que um ou mais sistemas operacionais diferentes sejam executados no sistema operacional do Macintosh para que os usuários possam executar um sistema operacional Microsoft Windows e uma aplicação baseada no Windows em um computador Macintosh.
P.
Para que serve a tecnologia de máquina virtual?
R. A tecnologia de máquina virtual serve para uma variedade de propósitos. Ela permite a consolidação do hardware, um sistema de recuperação simplificada, e a re-hospedagem de aplicações anteriores já que sistemas operacionais múltiplos podem ser executados em um único computador. Uma aplicação importante para a tecnologia de máquina virtual é a integração entre plataformas. Outras aplicações importantes são:
• Consolidação do servidor.Ser diversos computadores de servidor executam aplicações que consomem apenas uma fração dos recursos disponíveis, é possível usar a tecnologia da máquina virtual para permitir que as aplicações sejam executadas lado a lado em um único computador de servidor, mesmo que elas exijam versões diferentes do sistema operacional ou do middleware.
• Automação e consolidação dos ambientes de teste e desenvolvimento.Cada máquinas virtual funciona como um ambiente separado. Desta forma, os riscos são reduzidos e os desenvolvedores podem recriar rapidamente diferentes configurações de sistemas operacionais ou comparar versões de aplicações projetadas para sistemas operacionais diferentes. Além disso, um desenvolvedor pode ainda testar versões de uma aplicação nos seus primeiros estágios de desenvolvimento em uma máquina virtual sem desestabilizar o sistema para outros usuários.
• Re-hospedagem de versões anteriores de aplicações.É possível executar versões anteriores de sistemas operacionais e aplicações em um novo hardware junto com versões mais recentes destes sistemas operacionais e aplicações.
• Simplificação dos ambientes de recuperação do sistema.É possível usar as soluções de Virtualização como parte de um plano de recuperação de sistemas que exija flexibilidade e portabilidade entre plataformas de hardware.
• Demonstrações de software.Com a tecnologia de máquina virtual, é possível recriar rapidamente um novo ambiente de sistema operacional ou configuração do sistema.
P.
O que é o Virtual Server 2005?
R. O Virtual Server 2005 é a tecnologia de Virtualização mais eficaz em termos de custo, projetada para o Windows Server System. Como parte fundamental de qualquer estratégia de consolidação do servidor, o Virtual Server aumenta a utilização do hardware e permite que as organizações configurem e implantem rapidamente novos servidores. O lançamento atual é o Virtual Server 2005 R2, que possui recursos importantes que suportam a alta disponibilidade da máquina virtual, a hospedagem de x64, e o desempenho aprimorado.
P.
Quais as diferenças entre o Virtual PC e o Virtual Server?
R. O Microsoft Virtual PC 2004 é uma solução de máquina virtual para sistemas operacionais em estações de trabalho. O Microsoft Virtual Server 2005 é uma solução para sistemas operacionais em servidores. Apesar do Virtual PC e Virtual Server possuírem muitos recursos em comum, eles foram projetados para propósitos diferentes e por isso alguns de seus recursos são bastante diferentes. Para uma explicação mais detalhada das diferenças entre o Virtual PC e o Virtual Server e uma discussão acerca dos diversos cenários para um ou outro, faça o download do Informe Oficial sobre Virtualização na página de Downloads de Documentos sobre Licenciamento por Volume.
P.
O que é preciso saber sobre o licenciamento em um ambiente de máquina virtual?
R. Para informações sobre o licenciamento em um ambiente de máquina virtual, faça o download do documento sobre licenciamento Licenciando o Microsoft Windows Server e outros Softwares de Servidores Microsoft para o Microsoft Virtual Server 2005 ou Outros Ambientes de Máquina Virtual(arquivo Microsoft Word, 145 KB).
P.
Posso transferir uma licença do Microsoft Windows Server de um OEM (original equipment manufacturer - fabricante de equipamentos originais) para uma máquina virtual em outra máquina virtual? Como esta situação é tratada?
R. Você não pode transferir licenças de servidor de OEMs da máquina original para uma máquina diferente. Qualquer licença do Microsoft Windows Server que for pré-instalada em um novo computador por um OEM ou que tenha sido adquirida através de qualquer programa de Licenciamento por Volume da Microsoft está vinculada ao computador no qual o software licenciado foi instalado. Isto se aplica à cópia inicial que é instalada no computador e a toda e qualquer cópia licenciada para ser executada com um software de máquina virtual.
No entanto, se você tiver inscrito esta licença pelo contrato de Licenciamento por Volume da Microsoft e tiver adquirido o Software Assurance para esta licença pré-instalada dentro de 90 dias após a compra original, você terá alguns benefícios, incluindo uma nova designação para licença associada com o programa de Licença por Volume. Você poderá, então, transferir aquela licença de um computador para outro, incluindo para uma máquina virtual.
P.
Quantas licenças do Windows Server são necessárias para minhas máquinas virtuais?
R. Cada cópia instalada de um sistema operacional de servidor do Windows deve ser licenciada separadamente. Por exemplo, se você estiver instalando quatro máquinas virtuais no Virtual Server 2005 para a execução de uma instância do Microsoft Windows 2000 Server e três instâncias do Microsoft Windows NT Server 4.0 ao mesmo tempo, então você precisará de uma licença do Windows 2000 Server e três licenças do Windows NT Server 4.0. Estas licenças são adicionais à licença de hospedagem do Microsoft Windows Server 2003 executado no Virtual Server 2005. Você deve ter ou adquirir licenças do Windows Server para o número máximo de cópias de software que serão instaladas ou executadas.
Com o sistema operacional do Microsoft Windows Server 2003, Enterprise Edition, você terá direitos sobre as quatro máquinas virtuais sob uma única licença física. Neste caso, se você estiver instalando quatro máquinas virtuais no Virtual Server 2005 para executaram ao mesmo tempo uma instâncias do Windows 2000 Server e três instâncias do Windows NT Server 4.0, você precisará adquirir apenas uma licença do Windows Server 2003, Enterprise Edition, como host.
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Quais são os requisitos da CAL (Client Access License - Licença de Acesso do Cliente) para máquinas virtuais?
R. Uma CAL do Windows Server 2003 CAL é exigida para cada usuário ou dispositivo que acesse a máquina virtual enquanto ela é executada no sistema operacional do host (Windows Server 2003).
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A execução do Windows NT em uma máquina virtual significa que a Microsoft está ampliando o suporte para o produto?
R. Não. Você pode se beneficiar da transferência de aplicações de um hardware físico para máquinas virtuais. No entanto, a execução destas aplicações em um ambiente virtual não amplia seus ciclos de vida de suporte. Para mais informações sobre a duração dos ciclos de vida de suporte, visite a página do Ciclo de Vida do Suporte Microsoft.
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Quantas máquinas Virtuais podem ser executadas por processador?
R. O número de máquinas virtuais que pode ser executado por host depende de diversos aspectos, incluindo memória física, processador, e carga de trabalho em execução no guest. Com o Virtual Server 2005, você pode definir a quantidade de memória disponível para uma máquina virtual. A alocação da memória pode ser alterada para refletir as necessidades da máquina virtual. Para mais informações, leia o Informe Oficial da Visão Geral Técnica do Virtual Server 2005.
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A Microsoft oferece uma ferramenta de conversão de máquinas física – para – máquina virtual (P2V)?
R. Sim. Você pode fazer o download da ferramenta na página Microsoft Virtual Server 2005 Migration Toolkit.
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Posso usar a tecnologia de máquinas virtual junto com uma SAN (storage area network - rede de área de armazenamento)?
R. O Virtual Hard Disks (VHD) pode ser armazenado em uma SAN. Um sistema operacional do host visualiza um volume SAN como um volume local. Portanto, não é necessária uma configuração específica para utilizar o Virtual Server 2005 com uma SAN. Para mais informações, faça uma busca por "SAN" no Guia do Administrador do Virtual Server. O Virtual Server 2005 R2 agora pode fazer o cluster de hosts do Virtual Server baseado no armazenamento compartilhado, o que inclui arquiteturas de SAN.
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Se o Windows Server 2003, Enterprise Edition, for usado como o ambiente host, terei direito a quatro licenças virtuais? E se o host for o VMWare?
R. O licenciamento não depende da tecnologia de virtualização que está sendo usada. Com uma licença para o Windows Server 2003 R2, Enterprise Edition, é possível executar uma instâncias do software em um ambiente de sistema operacional físico e até quatro instâncias em ambientes de sistema operacional virtual. Com o VMWare GSX Server, significa que você pode executar uma instância física mais quatro instâncias virtuais. Com o VMWare ESX Server, significa que você pode executar quatro instâncias virtuais porque não há necessidade para uma instância física.
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Uma organização pode transferir licenças já existentes para o Windows Server 2003, Enterprise Edition, para desfrutar dos mesmos direitos para ambientes virtuais adicionais? Por exemplo, é possível transferir cinco licenças existentes para o Windows Server 2003, Enterprise Edition, para garantir o direito de execução de 20 ambientes de sistemas operacionais virtuais?
R. Se a organização tiver o Software Assurance, ela pode fazer a atualização de suas licenças do Windows Server 2003, Enterprise Edition, para licenças do Windows Server 2003 R2, Enterprise Edition. Se ela tiver Software Assurance, ela pode adquirir “step-ups”, permitindo que elas transfiram suas licenças do Windows Server 2003, Standard Edition, para o Windows Server 2003, Enterprise Edition (e depois para o Windows Server 2003 R2, Enterprise Edition). As Licenças por Volume podem ser designadas novamente a cada 90 dias, de um servidor físico para outro. As licenças de OEMs não podem ser designadas novamente.
P.
Com o Microsoft SQL Server em um cenário de failover ativo ou passive, uma organização possui duas máquinas virtuais, com um processador virtual em cada. Apenas uma máquina virtual está em execução ou ativa (um processador); a segunda máquina virtual está desativada ou inativa (um processador) e é usada apenas como backup. A organização deve adquirir apenas uma licença de produto do SQL e usar os direitos de ativo ou passivo para a segunda instalação? Esta regra pode ser aplicada a um ambiente virtual?
R. Uma máquina virtual inativa não precisa de uma licença separada para nenhum dos produtos de servidor Microsoft. Se uma organização cria uma máquina virtual e esta máquina não está em execução, então a organização não precisa de uma licença separada para o software naquela máquina virtual. Com o aprimoramento da “licença por instância executada", uma licença permite que a organização crie qualquer número de instâncias ou de backups de software. Por exemplo, se a organização tiver uma licença para o Windows Server, então ela pode criar qualquer número de instâncias ou cópias de backup do Windows Server.
O SQL Server, especificamente, tem a exceção do "failover passivo"; uma organização pode executar uma segunda instância do SQL Server. No entanto, esta instância deve ser passiva e não ativa. A organização pode executar aquela instância em um máquina virtual no mesmo servidor ou em uma máquina virtual em outro servidor. Por exemplo, se a organização tiver uma máquina virtual executando o SQL Server no Servidor A, ela pode criar uma instância passiva do SQL Server em uma máquina virtual no Servidor B. Tanto a máquina virtual no Servidor A quanto máquina virtual no Servidor B estão em execução. No entanto, a instância do SQL Server no Servidor B deve ser passiva. ("Passiva", no sentido de "failover passivo", isto é, uma instância em execução que não está trabalhando).
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Ética e Tecnologia
Ética e Tecnologia Dr. José Liberado Ferreira Caboclo
A tecnologia invadiu as três atividades humanas fundamentais conforme a sistematização de Hannah Arendt. Labor, trabalho e ação foram completamente modificados no último século, a tal ponto que até a mais privada de todas as atividades humanas, o labor, tornou-se pública.
Se em outro tempo se poderia dizer que a condição humana do labor é a própria vida, ou seja, o processo biológico do corpo humano cujo desenvolvimento e declínio dependem da satisfação das atividades básicas atendidas pela atividade laborativa, hoje, este processo elementar já tem uma dependência íntima com o conhecimento tecnológico.
O homem mais humilde, desprovido de ambição do acúmulo de riqueza, vivendo numa sociedade razoavelmente organizada já não mais consegue cumprir apenas a sua atividade laborativa. As leis e diretrizes sociais obrigam-no a compromissos que o excedente da sua atividade laborativa não atenderá. A sua alimentação, que ele mesmo produz por meio de uma agricultura primitiva, talvez não consiga atingir um valor no mercado, de tal forma que, o excedente sendo vendido, não será suficiente para que ele pague as taxas e impostos da "sua propriedade". Até mesmo a água que ele bebe, seja de um poço, ou de um sistema de captação e distribuição, sofre um controle tecnológico. A sua composição deve ser avaliada por uma instituição tecnicamente competente. A quantidade de micróbios desta água tem de estar dentro de um limite aceitável. Ele pode até ser obrigado a se mudar do lugar que escolhera para viver, se os controladores do meio ambiente concluírem que o ar por ele respirado tem uma concentração muito alta de dióxido de carbono. O destino dos seus dejetos não mais lhe cabe decidir. Eles terão de ser encaminhados a um sistema adequado de drenagem e terminarão numa usina de compostagem, onde se transformarão em fertilizante biodegradável. No seu isolamento, sequer uma atitude estóica, de convivia com a dor, lhe é permitida. A dor, reflexo de uma enfermidade de causa desconhecida, implicará numa investigação profunda, para que se afaste o perigo de eclosão de uma endemia. Ele será radiografado, tomografado, sonorizado e ressonorizado magneticamente. Todos os líquidos do seu corpo serão cientificamente caracterizados. Ele poderá, ao fim de todos esses exames, ser geneticamente aconselhado a não ter filhos. A sua capacidade de reproduzir foi cerceada tecnicamente. Talvez ele possa até ter filhos, desde que a sua mulher faça um exame especial para afastar a possibilidade de uma segregação perigosa de gens. A tecnologia permite que ele "escolha adequadamente o seu objeto ideal. Melhor que os seus sentimentos".
Viver simplesmente a vida passou a ter um custo que a simples atividade laborativa não consegue atender. Em toda a história da humanidade, nenhum ditador, nenhum império exerceu um tamanho domínio sobre o homem. Não mais existe a possibilidade de se viver em contato com a natureza sem a pretensão de dela não se apropriar.
A ética do desenvolvimento tecnológico se fundamenta numa existência mais longa e mais prazeirosa. O prazer, no entanto, jamais é atingido numa atitude passivo. A tecnologia imposta, num sistema de acumulação de riqueza, perde seu significado ético, porque, de modo contraditório, gera um sofrimento infrene. O desenvolvimento tecnológico industrial nada tem a ver com um índio, que um dia à beira de um, rio, observando o seu curso, percebe que as escamas do peixe brilham sob a luz solar. Aprende a pescá-lo com a mão e corre para a sua taba, carregado de piramutabas. E difunde para toda a sua tribo a sua descoberta, além de com eles compartilhar o incremento da produtividade decorrente do progresso tecnológico. Singelamente aquele indígena definiu a subordinação da técnica ao modo de produção, o caráter ético, a função social e a apropriação social do progresso técnico.
A perda quase total de significação da atividade laborativa é um dos fatores principais de nossa desagregação social. A migração das populações rurais e a prostituição feminina decorrem da extinção da chamada economia de subsistência.
Os migrantes para os centros urbanos vão contrair sócios na sua atividade laborativa (empregada domestica), que lhes permite viver sem evoluir para um trabalho que não existe ou para o qual não têm competência ou, pelo menos, competitividade. Em outras situações mascaram uma atividade laborativa, como se fosse um trabalho, posto que vendem sua força por um preço inferior ao custo e custeio da máquina (servente de pedreiro).
Finalmente, promovem a ausência de dor por falta de afeto, perspectiva de felicidade, dentro da existência privada do indivíduo isolado do mundo (prostituição).
Na esfera do trabalho, o avanço tecnológico melhorou a qualidade de vida na medida em que diminuiu a dor corporal, reduziu a utilização da força física e com isto absorveu maiores contingentes humanos, facilitou o aprendizado, aproximou o homem a distancia e reduziu as especulações exotéricas. No entanto, a tecnologia deu ensejo a emoções negativas, excluiu humanos não competitivos, diminuiu a criatividade humana, distanciou os homens na sua proximidade e aumentou o misticismo não religioso. Mas muitas vezes se confundem as distorções trazidas pela tecnologia com as incorreções de governos não democráticos. Há que se distinguir a origem das imperfeições.
Negar a aquisição de tecnologia a uma sociedade, seu domínio e sua implementação, é condená-la a um estado de submissão e de empobrecimento inexorável. Dominar uma tecnologia nada tem a ver com a
sua aplicação imediata, sem se considerar outros fatores condicionantes. O domínio tecnológico envolve investimentos em pesquisa.
Em qualquer nação organizada, este investimento deve ser feito sob o controle da sociedade. Esta é uma atitude ética. É uma interpretação errônea presumir que a liberdade criativa deva ser assegurada para que a pesquisa possa se desenvolver mais plenamente. Não se pode de modo algum submeter a vontade coletiva aos desejos individuais. O que parece ser uma posição liberal, na realidade, transforma-se numa típica atitude nazista. Nada justifica uma atitude procrastinatória em relação à aquisição de tecnologia. Não existe limite para o investimento.O que se deve limitar é a abrangência da aplicação do avanço tecnológico. O acesso ao progresso tecnológico deve ser eticamente estabelecido por parâmetros de prioridade. Infelizmente a não-fixação de limites de demanda impede a investigação vertical. Uns poucos são contemplados a curto prazo. A médio e longo prazo todos perdem. Teme-se enfrentar uma realidade indesejável, não tanto pela sua inexorabilidade, mais muito mais por atitude de onipotência, elaborada como se fosse uma posição idealista. Procura-se uma explicação conjuntural para a impossibilidade e se perde tempo e energia num preciosismo ridículo. Pesquisa não se faz num só projeto, nem muito menos numa só geração. A pesquisa deve ser uma atividade continua, não condicionada a verbas flutuantes, nem muito menos dependente de paixões pessoais.
Numa sociedade heterogênea, em que diferentes segmentos se encontram em fases assincrônicas de desenvolvimento, deve-se fugir da atitude escapista que postule a satisfação prioritária das necessidades básicas antes de "se aventurar" em projetos mais avançados. Se existe alguma aventura, é a teimosia em se querer negar que muito da defasagem no desenvolvimento se deve justamente à submissão tecnológica. E mais, é querer negar que o avanço tecnológico pressupõe a simplificação dos modelos, tornando-os mais acessíveis às comunidades mais atrasadas.
Um programa nuclear deve ser pesquisado com obstinação. Se não existem recursos para a montagem de uma usina termonuclear, que se construa um pequeno reator até mesmo para finalidade didática, de tal forma que os cientistas do pais possam apreender a evolução dos conhecimentos. O mesmo deve ocorrer em todas as áreas do desenvolvimento tecnológico: fibra ótica, supercondutores, biotecnologia, químico-farmacêutica.
O não-desenvolvimento tecnológico é antiético, na medida em que torna uma sociedade definitivamente subordinada aos interesses imperialistas de outras nações. Não se pode mais aceitar velhas teses da harmonia de objetivos, que é a característica básica da economia clássica. Mesmo os liberais admitiram a existência de um único objetivo, como se houvesse uma mão invisível a produzir a harmonia dos vários interesses. De modo diferente, Marx encarou a realidade do conflito e anteviu a hipotética ficção da harmonia. A sociedade pós-moderna tem mostrado uma característica não prevista. Os segmentos mais privilegiados assumiram uma atitude de conformismo ante a evolução tecnológica, de tal forma como se dissesse - vamos para a festa, assim já está bom. Este neoconservadorismo é designado por apelidos notáveis - preservação do planeta, conservação ambiental, respeito aos códigos morais e religiosos. Chega-se mesmo a se contar como atos heréticos certas práticas da engenharia genética. Não é ético limitar o conhecimento humano. Mais uma vez cabe à sociedade disciplinar seu uso.
Durante muito tempo a cultura ocidental judaico-cristã aceitou o postulado platônico da criatividade humana, segundo o qual toda invenção é um ato do pensamento. E o pensamento é um atributo de Deus, que é um ser infinito pensante, completaria Spinoza. A velha tese Aristotélica de que a criatividade humana decorre apenas e tão-somente de um sem número de percepções que modulam o pensamento foi rejeitada pelos ideólogos das religiões cristãs. Muito antes da descoberta do inconsciente, Agostinho e Nicolaus de Cosa entenderam que o trabalho criativo está intimamente relacionado à capacidade emocional do amor e da paixão. É dentro desta concepção que se pode admitir uma perfeita conciliação ética entre o avanço tecnológico e a harmonia da sociedade. Não se trata de se exigir uma homogeneização da sociedade, graças à adoção de políticas que incluam a potencialidade de todos. Esta pseudovisão marxista levaria fatalmente a sociedade a uma estagnação e submissão irreversíveis. Cumpre antes ensejar o desenvolvimento tecnológico e delimitar a sua implementação aos segmentos cujo estágio cultural de desenvolvimento o permita. A tabuada deve conviver com o supercomputador, o míssil com o estilingue, o transplante com a pajelança, a máquina de lavar roupa com a tina da beira do rio, o alimento congelado com o feijão da panela de barro preparado no velho fogão de lenha. A atitude ética que permite a fusão destas realidades é a educação.
A imposição de uma tecnologia a uma sociedade que não teve uma educação adequada para recebê-la tem provocado os maiores desastres para a humanidade. Levaram, por exemplo, jovens a matarem milhões de míseros camponeses asiáticos, na presunção de que eles representavam uma grande ameaça para a democracia do novo mundo. Esta educação deve obrigatoriamente priorizar o aprendizado de atitudes coletivas de respeito humano, segundo a tábua dos mandamentos os mais sagrados. Tudo dentro da proposição de Spinoza - todas as idéias, enquanto se referem a Deus, são verdadeiras!
O desenvolvimento tecnológico passou a envolver um outro tipo de dominação, o código da propriedade intelectual. A tecnologia industrial atualmente se encontra em discussão em quase todo o mundo em função de certas conquistas recentemente atingidas, e enfrenta problemas de natureza ética. O nosso país, por exemplo, há cerca de vinte anos deixou de reconhecer o direito de patente sobre produtos químicos farmacêuticos e sobre produtos nutritivos. O capital internacional agora tenta obter o direito de patente, não só para este tipo de produto, como também para os resultantes de processos biotecnológicos. Argumenta-se que o investimento em pesquisa é muito grande, nem sempre com retorno imediato e, portanto, o direito à patente se justifica ante a necessidade de se cobrir os custos de produção e poder-se continuar num processo de investigação, necessário à melhoria da qualidade de vida de toda a humanidade. Quando se pergunta se o preço do produto já não inclui estes gastos, a resposta é a de que a reprodução imitativa por um competidor impediria uma concorrência efetiva no mercado. Não deixa de ser paradoxal - o neoliberalismo pedindo a interferência do Estado para proteger a economia. Ou seja, o neoliberalismo aceita o Estado que defenda as suas incoerências. Quando se pergunta ainda por que a patente com direito à exploração monopolista não pode ser substituída pelo pagamento do royalty, a explicação é que seria impossível o controle da produção. Não há qualquer dúvida de que a patente poderá ser um artificio de estimulo ícompetitividade técnico-científica. Mas não se pode deixar de considerar o aspecto global do relacionamento econômico entre as diferentes sociedades. A ética não pode prevalecer em situações circunscritas. Antes deve nortear acordos bilaterais em que não só a propriedade intelectual, mas outros fatores devam ser equacionados.
Um organismo internacional do tipo Gatt, que regule todos os assuntos pertinentes à proteção industrial e agrícola, está fadado ao insucesso, posto que é impossível uma sistemática única que contemple as expectativas de países em fases diferentes de desenvolvimento. A patente seria mais bem regulamentada em acordos bilaterais, sendo a transferência de tecnologia uma determinante para uma posição consensual.
Do ponto de vista moral-filosófico a patente é antiética no conceito de Spinoza. Com efeito, o pensamento de Deus é infinito e o ato de pensar está em Deus. Não cabe tributar a criação divina.
A tecnologia invadiu as três atividades humanas fundamentais conforme a sistematização de Hannah Arendt. Labor, trabalho e ação foram completamente modificados no último século, a tal ponto que até a mais privada de todas as atividades humanas, o labor, tornou-se pública.
Se em outro tempo se poderia dizer que a condição humana do labor é a própria vida, ou seja, o processo biológico do corpo humano cujo desenvolvimento e declínio dependem da satisfação das atividades básicas atendidas pela atividade laborativa, hoje, este processo elementar já tem uma dependência íntima com o conhecimento tecnológico.
O homem mais humilde, desprovido de ambição do acúmulo de riqueza, vivendo numa sociedade razoavelmente organizada já não mais consegue cumprir apenas a sua atividade laborativa. As leis e diretrizes sociais obrigam-no a compromissos que o excedente da sua atividade laborativa não atenderá. A sua alimentação, que ele mesmo produz por meio de uma agricultura primitiva, talvez não consiga atingir um valor no mercado, de tal forma que, o excedente sendo vendido, não será suficiente para que ele pague as taxas e impostos da "sua propriedade". Até mesmo a água que ele bebe, seja de um poço, ou de um sistema de captação e distribuição, sofre um controle tecnológico. A sua composição deve ser avaliada por uma instituição tecnicamente competente. A quantidade de micróbios desta água tem de estar dentro de um limite aceitável. Ele pode até ser obrigado a se mudar do lugar que escolhera para viver, se os controladores do meio ambiente concluírem que o ar por ele respirado tem uma concentração muito alta de dióxido de carbono. O destino dos seus dejetos não mais lhe cabe decidir. Eles terão de ser encaminhados a um sistema adequado de drenagem e terminarão numa usina de compostagem, onde se transformarão em fertilizante biodegradável. No seu isolamento, sequer uma atitude estóica, de convivia com a dor, lhe é permitida. A dor, reflexo de uma enfermidade de causa desconhecida, implicará numa investigação profunda, para que se afaste o perigo de eclosão de uma endemia. Ele será radiografado, tomografado, sonorizado e ressonorizado magneticamente. Todos os líquidos do seu corpo serão cientificamente caracterizados. Ele poderá, ao fim de todos esses exames, ser geneticamente aconselhado a não ter filhos. A sua capacidade de reproduzir foi cerceada tecnicamente. Talvez ele possa até ter filhos, desde que a sua mulher faça um exame especial para afastar a possibilidade de uma segregação perigosa de gens. A tecnologia permite que ele "escolha adequadamente o seu objeto ideal. Melhor que os seus sentimentos".
Viver simplesmente a vida passou a ter um custo que a simples atividade laborativa não consegue atender. Em toda a história da humanidade, nenhum ditador, nenhum império exerceu um tamanho domínio sobre o homem. Não mais existe a possibilidade de se viver em contato com a natureza sem a pretensão de dela não se apropriar.
A ética do desenvolvimento tecnológico se fundamenta numa existência mais longa e mais prazeirosa. O prazer, no entanto, jamais é atingido numa atitude passivo. A tecnologia imposta, num sistema de acumulação de riqueza, perde seu significado ético, porque, de modo contraditório, gera um sofrimento infrene. O desenvolvimento tecnológico industrial nada tem a ver com um índio, que um dia à beira de um, rio, observando o seu curso, percebe que as escamas do peixe brilham sob a luz solar. Aprende a pescá-lo com a mão e corre para a sua taba, carregado de piramutabas. E difunde para toda a sua tribo a sua descoberta, além de com eles compartilhar o incremento da produtividade decorrente do progresso tecnológico. Singelamente aquele indígena definiu a subordinação da técnica ao modo de produção, o caráter ético, a função social e a apropriação social do progresso técnico.
A perda quase total de significação da atividade laborativa é um dos fatores principais de nossa desagregação social. A migração das populações rurais e a prostituição feminina decorrem da extinção da chamada economia de subsistência.
Os migrantes para os centros urbanos vão contrair sócios na sua atividade laborativa (empregada domestica), que lhes permite viver sem evoluir para um trabalho que não existe ou para o qual não têm competência ou, pelo menos, competitividade. Em outras situações mascaram uma atividade laborativa, como se fosse um trabalho, posto que vendem sua força por um preço inferior ao custo e custeio da máquina (servente de pedreiro).
Finalmente, promovem a ausência de dor por falta de afeto, perspectiva de felicidade, dentro da existência privada do indivíduo isolado do mundo (prostituição).
Na esfera do trabalho, o avanço tecnológico melhorou a qualidade de vida na medida em que diminuiu a dor corporal, reduziu a utilização da força física e com isto absorveu maiores contingentes humanos, facilitou o aprendizado, aproximou o homem a distancia e reduziu as especulações exotéricas. No entanto, a tecnologia deu ensejo a emoções negativas, excluiu humanos não competitivos, diminuiu a criatividade humana, distanciou os homens na sua proximidade e aumentou o misticismo não religioso. Mas muitas vezes se confundem as distorções trazidas pela tecnologia com as incorreções de governos não democráticos. Há que se distinguir a origem das imperfeições.
Negar a aquisição de tecnologia a uma sociedade, seu domínio e sua implementação, é condená-la a um estado de submissão e de empobrecimento inexorável. Dominar uma tecnologia nada tem a ver com a
sua aplicação imediata, sem se considerar outros fatores condicionantes. O domínio tecnológico envolve investimentos em pesquisa.
Em qualquer nação organizada, este investimento deve ser feito sob o controle da sociedade. Esta é uma atitude ética. É uma interpretação errônea presumir que a liberdade criativa deva ser assegurada para que a pesquisa possa se desenvolver mais plenamente. Não se pode de modo algum submeter a vontade coletiva aos desejos individuais. O que parece ser uma posição liberal, na realidade, transforma-se numa típica atitude nazista. Nada justifica uma atitude procrastinatória em relação à aquisição de tecnologia. Não existe limite para o investimento.O que se deve limitar é a abrangência da aplicação do avanço tecnológico. O acesso ao progresso tecnológico deve ser eticamente estabelecido por parâmetros de prioridade. Infelizmente a não-fixação de limites de demanda impede a investigação vertical. Uns poucos são contemplados a curto prazo. A médio e longo prazo todos perdem. Teme-se enfrentar uma realidade indesejável, não tanto pela sua inexorabilidade, mais muito mais por atitude de onipotência, elaborada como se fosse uma posição idealista. Procura-se uma explicação conjuntural para a impossibilidade e se perde tempo e energia num preciosismo ridículo. Pesquisa não se faz num só projeto, nem muito menos numa só geração. A pesquisa deve ser uma atividade continua, não condicionada a verbas flutuantes, nem muito menos dependente de paixões pessoais.
Numa sociedade heterogênea, em que diferentes segmentos se encontram em fases assincrônicas de desenvolvimento, deve-se fugir da atitude escapista que postule a satisfação prioritária das necessidades básicas antes de "se aventurar" em projetos mais avançados. Se existe alguma aventura, é a teimosia em se querer negar que muito da defasagem no desenvolvimento se deve justamente à submissão tecnológica. E mais, é querer negar que o avanço tecnológico pressupõe a simplificação dos modelos, tornando-os mais acessíveis às comunidades mais atrasadas.
Um programa nuclear deve ser pesquisado com obstinação. Se não existem recursos para a montagem de uma usina termonuclear, que se construa um pequeno reator até mesmo para finalidade didática, de tal forma que os cientistas do pais possam apreender a evolução dos conhecimentos. O mesmo deve ocorrer em todas as áreas do desenvolvimento tecnológico: fibra ótica, supercondutores, biotecnologia, químico-farmacêutica.
O não-desenvolvimento tecnológico é antiético, na medida em que torna uma sociedade definitivamente subordinada aos interesses imperialistas de outras nações. Não se pode mais aceitar velhas teses da harmonia de objetivos, que é a característica básica da economia clássica. Mesmo os liberais admitiram a existência de um único objetivo, como se houvesse uma mão invisível a produzir a harmonia dos vários interesses. De modo diferente, Marx encarou a realidade do conflito e anteviu a hipotética ficção da harmonia. A sociedade pós-moderna tem mostrado uma característica não prevista. Os segmentos mais privilegiados assumiram uma atitude de conformismo ante a evolução tecnológica, de tal forma como se dissesse - vamos para a festa, assim já está bom. Este neoconservadorismo é designado por apelidos notáveis - preservação do planeta, conservação ambiental, respeito aos códigos morais e religiosos. Chega-se mesmo a se contar como atos heréticos certas práticas da engenharia genética. Não é ético limitar o conhecimento humano. Mais uma vez cabe à sociedade disciplinar seu uso.
Durante muito tempo a cultura ocidental judaico-cristã aceitou o postulado platônico da criatividade humana, segundo o qual toda invenção é um ato do pensamento. E o pensamento é um atributo de Deus, que é um ser infinito pensante, completaria Spinoza. A velha tese Aristotélica de que a criatividade humana decorre apenas e tão-somente de um sem número de percepções que modulam o pensamento foi rejeitada pelos ideólogos das religiões cristãs. Muito antes da descoberta do inconsciente, Agostinho e Nicolaus de Cosa entenderam que o trabalho criativo está intimamente relacionado à capacidade emocional do amor e da paixão. É dentro desta concepção que se pode admitir uma perfeita conciliação ética entre o avanço tecnológico e a harmonia da sociedade. Não se trata de se exigir uma homogeneização da sociedade, graças à adoção de políticas que incluam a potencialidade de todos. Esta pseudovisão marxista levaria fatalmente a sociedade a uma estagnação e submissão irreversíveis. Cumpre antes ensejar o desenvolvimento tecnológico e delimitar a sua implementação aos segmentos cujo estágio cultural de desenvolvimento o permita. A tabuada deve conviver com o supercomputador, o míssil com o estilingue, o transplante com a pajelança, a máquina de lavar roupa com a tina da beira do rio, o alimento congelado com o feijão da panela de barro preparado no velho fogão de lenha. A atitude ética que permite a fusão destas realidades é a educação.
A imposição de uma tecnologia a uma sociedade que não teve uma educação adequada para recebê-la tem provocado os maiores desastres para a humanidade. Levaram, por exemplo, jovens a matarem milhões de míseros camponeses asiáticos, na presunção de que eles representavam uma grande ameaça para a democracia do novo mundo. Esta educação deve obrigatoriamente priorizar o aprendizado de atitudes coletivas de respeito humano, segundo a tábua dos mandamentos os mais sagrados. Tudo dentro da proposição de Spinoza - todas as idéias, enquanto se referem a Deus, são verdadeiras!
O desenvolvimento tecnológico passou a envolver um outro tipo de dominação, o código da propriedade intelectual. A tecnologia industrial atualmente se encontra em discussão em quase todo o mundo em função de certas conquistas recentemente atingidas, e enfrenta problemas de natureza ética. O nosso país, por exemplo, há cerca de vinte anos deixou de reconhecer o direito de patente sobre produtos químicos farmacêuticos e sobre produtos nutritivos. O capital internacional agora tenta obter o direito de patente, não só para este tipo de produto, como também para os resultantes de processos biotecnológicos. Argumenta-se que o investimento em pesquisa é muito grande, nem sempre com retorno imediato e, portanto, o direito à patente se justifica ante a necessidade de se cobrir os custos de produção e poder-se continuar num processo de investigação, necessário à melhoria da qualidade de vida de toda a humanidade. Quando se pergunta se o preço do produto já não inclui estes gastos, a resposta é a de que a reprodução imitativa por um competidor impediria uma concorrência efetiva no mercado. Não deixa de ser paradoxal - o neoliberalismo pedindo a interferência do Estado para proteger a economia. Ou seja, o neoliberalismo aceita o Estado que defenda as suas incoerências. Quando se pergunta ainda por que a patente com direito à exploração monopolista não pode ser substituída pelo pagamento do royalty, a explicação é que seria impossível o controle da produção. Não há qualquer dúvida de que a patente poderá ser um artificio de estimulo ícompetitividade técnico-científica. Mas não se pode deixar de considerar o aspecto global do relacionamento econômico entre as diferentes sociedades. A ética não pode prevalecer em situações circunscritas. Antes deve nortear acordos bilaterais em que não só a propriedade intelectual, mas outros fatores devam ser equacionados.
Um organismo internacional do tipo Gatt, que regule todos os assuntos pertinentes à proteção industrial e agrícola, está fadado ao insucesso, posto que é impossível uma sistemática única que contemple as expectativas de países em fases diferentes de desenvolvimento. A patente seria mais bem regulamentada em acordos bilaterais, sendo a transferência de tecnologia uma determinante para uma posição consensual.
Do ponto de vista moral-filosófico a patente é antiética no conceito de Spinoza. Com efeito, o pensamento de Deus é infinito e o ato de pensar está em Deus. Não cabe tributar a criação divina.
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